Minhas escuridões, meus breus… nem mesmo eu consigo trafegar incólume em meus desconhecimentos de minha interna arquitetura. O que nutre esses descaminhos, essas tentativas de incursão à minha própria essência é uma mistura, por vezes dramática, de sentimentos. Busco me equilibrar em uma linha que tangencia os sentidos e por vezes me surpreendo com o que de insatisfação e de tristeza posso provocar. Não me é fácil apurar ou mudar o que dá fundamento a tais situações; às vezes me perco em expectativas e em vontades de agrado mas, ao toque de uma frustração, me defendo como se fosse uma fera acuada.
Defeitos, problemas? Eu os tenho, normalmente fantasmas que se abrigaram há décadas em minha alma. De quando em quando um deles me arrebata e eu tento detê-lo, deles me esquivo ou os enfrento bravamente, mas sei, claramente, que não os aniqüílo. Por serem fantasmas voltarão a me apertar a alma, a confundir-me ante o espelho, a iludir, mostrando quem talvez eu seja em verdade ou, se não, simplesmente buscando escavar feridas abertas. De todo, mantenho com os meus fantasmas uma relação de repulsa e de aproximação, como um fardo inesgotável que tenho de carregar, pedaços dilacerados de minhas escuridões.
Meus fantasmas, meus algozes normalmente não esperam as noites para me confundirem, me retirarem de minhas provisórias tranqüilidades: são hectoplasmas high tech e a qualquer hora e tempo manifestam suas presenças através de uma inequívoca sensação de desconforto e de deslocamento de meus próprios eixos de referência. Sempre me provocam uma enorme vontade de me evadir, de ausentar-me de onde quer que esteja.
No entanto, não há refúgio possível; sinto-me constrangido ante os outros e perante eu mesmo. Normalmente meu senso de crítica aguça ainda mais tal desconforto e uma sensibilidade extrema brinca com os sentimentos de culpa judaico-cristão como um gato faz com um rato. Sinto-me inadequado quanto ao que penso, ao que falo e em relação às mensagens que meu corpo transmite. É como se eu me colocasse em uma situação pífia, implausível, ridícula, o que serve como um catalisador para a raiva, a angústia e a solidão. O sentido de pertencimento e de referência me abandona e eu agradeço quando consigo purgar as inconsistências que insistem em me acompanhar.
Saber lidar com essas aparições, com essas tristezas, é uma necessidade imperiosa, pois são elas que, agindo em meu inconsciente, produzem efeitos e conduzem a conseqüências que afetam minha vida e minhas atitudes. Espelhos de nós mesmos, imagens muitas vezes distorcidas e de todo desconcertantes mas, queiramos ou não, fincadas em nossas construições identitárias. Por vezes, sofrer inaugura nossa passagem para o conhecimento. A dor, como o prazer, são parte do que somos. Meus fantasmas reconhecem, sobretudo, as tonalidades, os sons, os cheiros e as pequeníssimas variações do Vento.