2005-04-04
Há talvez nesses olhos um pouco de tristeza que já não pode ser revelada, que o tempo deixou apenas como tímida lembrança perdida em descompassos. Talvez nem mesmo haja saudade em ti, senão um pouco dessa tristeza misturada com uma certa angústia indeterminada, que parece em princípio um medo, uma contenção, e que depois vão tomando conta, de modo imperceptível dos dias, das noites, dos verões, das primaveras…
Isso tudo me parece um pouco de carnaval, um pouco de sodoma e gomorra, mas sem o travo do pecado, dispensando possíveis anjos e arcanjos e por aí todas as celestiais criaturas que pensamos termos em nossas carnes de volúpia e nosso desejo insaciável de prazer. E assim conto novamente as estórias ou as histórias dos olhares ensandecidos, dos gemidos roucos e das luminosidades indecentes que ficavam assim, penduradas sobre o leito a cada vez que te deixavas ferir de tanto prazer…
E eram tais luminosidades tão densas que atravessavam não as noites, mas as almas dos amantes, as suas carnaduras, os seus êxtases e fincavam ali uma permanente iluminação, dessas que o tempo não consegue arrancar, e que vamos levar em nossa memória até o dia em que não estivermos mais aqui.
Talvez seja isso, talvcz essas luzes que provêm dos amores que tivemos, dos momentos de gozo e de paixão sem freios ou moralismos grotescos que irão acender as luzinhas que conduzirão nossos espíritos até o infinito… esses pequenos fragmentos, adotados em grãos e pólens nos transportarão aténossas novas moradas.
Espanta pois a tua melancolia, pois, entre milhões vivestes o amor, quantas vezes mais o vivestes como um manto a te cobrir a pele nua? E se assim foi, ai, por que as angústias, os jogos, as pequenas ou grandes mentiras, se o que te deu a vida foi dela o melhor, os momentos de mel e de lassa quentura entre os braços de quem amastes?
Assim, bela criatura, não reclames do que poderia ter sido e não foi e menos ainda lamentes o que considera infortúnios, asas do acaso decifradas em painés da paixão; contrariamente, faz voltar para teu peito e para a tua alma os momentos de intensa ternura que provocastes e os enlevos que a outra pessoa trouxestes e que tanto te deixaram encantada e encantadora. Essa a tua principal luz: a capacidade de amar.