Escritos para você

26
Mar 12

2005-05-02

 


Não vou te contar nenhuma novidade; confidenciar é abrir portar, conceder espaços, por isso me calo, fixo minhas memórias em meu corpo, gravadas como as inúmeras linhas de tempo que por vezes me tiram a capacidade de pensar. Em me reservando, resgato-me de teus movimentos. Preservo-me de ti na medida em que nada te digo, nada comento de fatos, sentidos e sentimentos que em minhas lembranças me acossam, me sacodem, me deixam apreensivo ou exultante. Quero-te assim, recordação de um carnaval distante, uma imagem de colombina, pedaços de confete me invadindo a boca, os olhos, possuindo, possuindo, possuindo.


Minhas modernidades já caíram em desuso; as teorias se desvaneceram como nacos de gelo, minhas seguranças são couraças amordaçadas. Cintos cingem-me., vendas cobrem-me os olhos, e mesmo assim eu persisto no sonho de tentar ver o que mais me tolhe os movimentos. Quero um banho tépido, quero adormecer em uma cama macia, relaxar, esquecer-me de forma tão absoluta até me tornar um espaço de solidão diante do vazio. Sequer quero que me acudam remorsos, tristezas, alegrias ou exultações. Não te aproximes de mim, tenho medo de sangrar, de que fístulas novamente circundem minha alma, que tuas lembranças me afoguem em um denso anel de gelo.


Quero apenas ficar assim, quieto, como um romance inacabado, como um cigarro queimando lentamente, como um bicho acuado. Deixa-me calado, permita que eu me emudeça, não me perguntes mais nada.

 

Não me recordes, em tua ausência, a ausência tua na qual me tornei.

publicado por blogdobesnos às 03:19

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