Escritos para você

03
Abr 12

J. saiu de casa com uma neblina forte atrapalhando tudo e com um frio que começava na pele, passava pelos ossos e terminava na alma.  O Sol era apenas uma presença tenue naquela manhã de geada, na qual pequenos cristais se acumulavam nas folhas das árvores e tingiam de cristais gelados a paisagem, tornando o clima ainda mais úmido. 

 

“Se o Sol estava assim, imagine a nossa mãe Terra, coadjuvante do grande astro…”, pensou J. Coadjuvante como ele próprio se sentia agora, enfrentando a geada como enfrentava, muitas vezes, a si mesmo e suas limitações. Vinha pensando nisso quando chegou, finalmente, ao poço. O mecanismo também estava congelando.  Jogou o balde e começou a movimentar a roldana, logo que ouviu o ruído da água. Pele muito clara, logo suas mãos e seu rosto rapidamente ficaram róseos, para progredir para um vermelho estranho, típico. Os olhos azuis cerravam enquanto as mãos buscavam o balde; seus pensamentos vagavam, erravam entre suas memórias e seu presente porque o futuro não lhe parecia nada mais que uma sequencia rotineira e um pouco sem sentido.

 

Uma vaca mugiu no pasto, logo adiante. J. estava tão conformado com sua vida que nada enxergava à frente. Finalmente o balde chegara às suas mãos. Apanhou-o, transferiu a água do balde para a tina que havia traazido e voltou-se para retornar à casa. Alguns metros depois, escutou os ruídos vindos do poço. De dentro dele.  O frio fez com que ainda se espantasse mais. Não conseguia, ali, reconhecer vozes humanas, menos ainda algum som de animal, daqueles que possuía em sua granja: patos, bois, cavalo, galinhas… Absolutamente nada se assemelhava àquele timbre rascado, incrivelmente agudo e dorido. Levou as mãos ao ouvido, enquanto, com cautela, apanhou uma enxada. Reclinou-se sobre o poço, e teve dificuldade de observar algo. Ali, no fundo, pensou ter percebido uma sombra. De repente o som aumentou muito de intensidade, e ele recuou.

 

A enxada caiu de suas mãos e sentiu o sangue escorrer de seus ouvidos. Era ensurdecedor e terrivelmente agudo. Olhou para o poço, mais sentiu do que viu algo saindo de lá. Algo assustador que ele não conseguiu definir, pois o desmaio o apanhou e o fez descansar.

 

Pela tarde, J. não regressou à casa, nem pela manhã e tarde seguintes. Clara, sua mulher, então avisou a delegacia local, que saiu a procurá-lo. J. foi localizado quinze quilometros ao sul da granja: vagava como se o tempo tivesse congelado; errava como se nada de diferente tivesse ocorrido. Para a polícia e a pequena comunidade rural, o breve desaparecimento foi motivo para conversas, fofocas e diz-que-diz-ques. Surpresos também ficaram os policiais quando sua esposa o recebeu como se tal sumiço fosse uma rotina; ela recebeu J. bastante tranquila, entrou na casa, ofereceu café aos policiais que terminaram por não aceitar, tinham de retornar à delegacia, uma reunião com o delegado os esperava. Mas eles estranharam muito tal recepção.

 

No dia anterior, Clara havia ligado bastante preocupada, quase histérica no telefone: gritara inclusive, exigindo providências urgentes. Agora, recebera J. como se tal desaparecimento fosse normal. Os dois policiais, ao retornarem, comentaram o fato. Era como, de algum modo, ela soubesse que nada de maior teria acontecido com o marido.  A impressão era a de que ela recebera notícias que informavam que  J.  não corria riscos maiores, mas não as havia repassado à polícia. De comum acordo, os policiais decidiram que, de quando em quando, retornariam à granja, para verificar como estavam as coisas.

 

O sargento Eduardo Pinto verificou seu relógio: quatro e meia da tarde; acelerou o veículo, para não chegarem atrasados na delegacia. Mais alguns minutos e a reunião iniciaria.

 

Com o decorrer do tempo, a comunidade achou outros assuntos para falar, embora, realmente, não houvesse grandes opções de assuntos pessoais para escarafunchar, para aumentar o entretenimento: afinal, todos sabiam que o barbeiro tinha uma amante e que sua mulher fazia de tudo para evitar qualquer atitude, que o governo do Estado construiria uma estrada (a promessa tinha já cinco anos) para escoar a produção rural, no mais eram os ataques de epilepsia de Eleumara, a qualquer tempo, a morte ainda não explicada de Rafael Borges, alfaiate casado com Laurinda Estrela, enfim. por aí íam os assuntos do dia-a-dia do povo, afora as questões economicas como os valores das safras, e, sem dúvida alguma, as eleições próximas, onde haveria uma previsível vitória da direita, porque, como se sabe, os petistas são todos uns vermelhos comunistas canalhas inconfiáveis e por aí vai.

 

De tal maneira assim, que o breve desaparecimento de J. não rendia muito como assunto, tendo, portanto, sido paulatinamente relegado ao esquecimento, embora todos reconhecessem que ele havia ficado com uma sequela importante: não conseguia mais escutar no ouvido esquerdo, apenas no direito. Os exames médicos confirmaram: ele havia ficado surdo daquele ouvido, mas não se lembrava de como aquilo tinha ocorrido, o que intrigou bastante o único oftalmologista que havia, num raio de quarenta quilômetros da granja.

 

Também, sempre que perguntavam a J. o que havia acontecido, porque ele havia sumido e o que afinal houve com seu ouvido, mesmo os amigos mais chegados – não eram muito – recebiam a mesma resposta: a única coisa que J. se lembrava era de que acordara de manhãzinha bem cedo para fazer seu café. Daí para frente, uma lacuna enorme; sequer se lembrava do motivo pelo qual perambulara, até se afastar quinze quilômetros da casa e ser “achado pela polícia”. Um branco total, e daí não evoluía sua fala, menos ainda sua memória.

 

A única pessoa que sabia o que havia realmente ocorrido era Clara, que entendia perfeitamente porque J. havia tido sequelas após ouvir o que ouviu. Casar e morar ali tinha sido um risco calculado, que ela não revelaria nunca. Mesmo ela, porém, tinha dúvidas: ele teria, afinal, visto algo, mesmo que de relance? De qualquer modo, ela não poderia, simplesmente, fechar, lacrar o poço. Afinal era ali o seu abrigo predileto quando ficava junto aos seus, com os dentes aguçados e ouvidos extremamente sensíveis à caça enquanto J. como bom e arrependido cristão, dormia o sono dos justos.

publicado por blogdobesnos às 00:28

Já disse todas as mentiras que pude criar, e elas sempre me deram a agradável sensação de conveniência. Depois, com o tempo, minhas vítimas preferenciais passaram francamente a duvidar do que eu prestimosamente inventava, de início sutilmente até o ponto em que me chamavam de falso, de não-confiável. Isso, longe de mexer com a minha auto-estima, acabou por liberar-me para o mundo da irresponsabilidade discursiva. Como um vampiro, passei a alimentar-me de novos crédulos, reiniciando o processo. Tudo isso me foi densamente útil ao longo da minha vida, em especial quando urdi e assassinei Juan Peres Almado. Detalhista, praticamente nada deixei de provas, a quando a Delegacia de Homicídios (DH) de Viña del Mar começou a caçar o matador do jovem e promissor mestre universitário, novamente o senso de escapismo me salvou.

 

Em uma noite particularmente quente, entrei em um bar, mais um pub, para ser exato, e comecei a beber. Quando o álcool atingiu o limiar a partir do qual poderia me comprometer seriamente, apanhei meu automóvel e acelerei até a DH, tendo o cuidado de travar bruscamente em frente a delegacia, de modo a que os presentes escutassem que os pneus travavam violentamente sob o asfalto, com o som característico de uma brecada. Entrei no prédio e anunciei que era o responsável pelo assassinato, tendo o cuidado – como é boa a prática apurada de falsear a verdade! - de plantar, em meu depoimento algumas sutis incongruências. Fui preso na hora.

 

No dia seguinte meu nome explodiu no noticiário local e, em minutos, no nacional: o assassino havia confessado o crime! Carlito de Los Santos, arquiteto de renome, quarenta e oito anos, ou seja, eu, havia procurado a DH local para confessar o assassinato de Juan Peres Almado, por motivos torpes – ciúmes homossexuais – e com o uso de crueldade – a vítima tinha sido torturada, antes da execução – o que, convenhamos, venderia um bom número de edições. Evidentemente a imprensa queria entrevistar o assassino e também, mais óbvio ainda que eu cobrei pelo incomodo, sendo o dinheiro depositado em minha conta corrente, além dos dez por cento reservados ao advogado, que, por seu turno, conseguiu algumas reportagens adicionais, que igualmente foram capitalizadas.

 

O caso, sem dúvida, era palpitante e tinha todos os ingredientes para virar o assunto do dia, do mes, dos meses que se seguiram. Após a DH, a televisão e as rádios ouvirem todos os possíveis envolvidos, quatro meses após eu fui liberado, porque as investigações esbarravam em suas incongruências. Eu deixei então de ser o suspeito número um. Solto, passei a argumentar no sentido da minha inocência, manipulando a situação e induzindo a opinião pública a entender que eu tinha sofrido uma injustiça; que na verdade a minha confissão advinha de questões psicológicas não resolvidas, conforme tratamento que havia começado, de modo conveniente, um ano antes do meu pequeno pecado homicida.

 

De bom profissional, passei a ser considerado pela midia como um excelente arquiteto. Nada que a midia não promova, desde que entendamos que devemos agir de modo inteligente de modo a ressaltarmos nossas virtudes de modo sutil, enganoso, como eu era expert em fazer. A imagem de contumaz mentiroso foi devidamente apagada graças a atuação midiática. Meu escritório de arquitetura teve um considerável acréscimo de contratos a aumentou sua produção em quase sessenta por cento e, embora tivesse que contratar terceiros, aumentando os custos de produção, as margens de lucro eram cada vez maiores. Quatro anos após o assassinato inaugurei duas filiais: uma em Buenos Aires e outra em São Paulo.

 

Há, contudo, um delegado em Viña del Mar que insiste em buscar provas da minha culpa. Para ele sou um psicótico, um frio assassino que deveria nunca ter saído da prisão, que deveria estar encarcerado, preso. Tolices de policial inconformado com a própria mediocridade, envolto em suas rotinas burocráticas. Enquanto eu circulo, midiático e com sucesso, ele enfrenta seu dia-a-dia de modo deprimente. Contudo, eu sei que mais cedo ou mais tarde ele tentará me enfrentar, com suas provas já esquálidas, seus escritos e conclusões, seus estudos de direito penal e seus amiguinhos da polícia. Talvez, nesse dia, eu tenha de retomar as artes da dissimulação e me obrigue novamente a manipular e minar totalmente a sua credibilidade, até que o perigo passe definitivamente.

 

Mas você não acredita nisso, não é?

 

publicado por blogdobesnos às 00:27

Naquela noite, P. sonhou que tinha o poder de ver o que de microscópico havia (células, mitocondrias, bacilos, ácaros, pólen, fímbrias, pedaços minúsculos de carne, de unhas, de pelos, fibras nervosas, texturas, gotas de chuva, insetos diminutos, até enlouquecer).  Na noite seguinte, sonhou que tinha o poder de ver o que de macroscópico havia (eu, você, os navios, tudo o que vemos normalmente, de tal modo condensados e expostos tão rapidamente quanto o nosso subconsciente pode detectar, pedaços de tudo e de todos, até enlouquecer).


Na terceira noite, sonhou que tinha o poder de ver o cosmos, por inteiro (luas, sóis, buracos negros, estrelas, meteoritos, meteoros, via láctea, andromeda, velocidade da luz, partículas rastreadoras, limites do imponderável, até enlouquecer). Na quarta noite, P.  sonhou que tinha o poder de visitar os mares, os oceanos, os lagos (fossa das Marianas, oceano ártico, oceano índico, oceano atlântico, oceano pacífico, mar de bósforo, mar das antilhas, e todos os seus habitantes e todos os seus habitats, peixes, mamíferos, estrelas do mar, sargaços, até enlouquecer). Na quinta noite, P. sonhou que tinha o poder de conhecer da natureza tudo o que existia (árvores, matas, florestas, desertos, animais de todos os tipos e tamanhos, roedores, muitos roedores, pacas e leões, antílopes e girafas, lobos e dromedários, até enlouquecer) .

 

Na sexta noite, P. sonhou que tinha o poder de ver e entender tudo o que de sutil e mecânico houvesse (cilindros, cones, projeções, máquinários, indústrias, chips, computadores, novelos de lã, batatinhas, teclados, música de câmera, digitais, aparelhos de som, montadoras de automóveis, laser, portas, pequenas e grandes passagens, eletrodos, até enlouquecer). Finalmente, na sétima noite, P. sonhou que era Deus (onipotencia, criação, signo religioso, crença, fé). Na oitava noite ele morreu, para ressucitar no sonho seguinte, quando todos passaram a dizer que ele era, efetivamente, Deus (abluções, banhos crismais, confissões, igrejas, padres, vaticano, convenções, dogmas, rituais a seguir, obrigações, vida metódica, previsível, tristeza do corpo, rigidez da mente).


A partir da décima noite, P. nunca mais sonhou.

publicado por blogdobesnos às 00:26

A velha senhora buscou, no seus guardados, as fotos dos seus netos. Achou-as, cuidadosa que era, e as deixou sob  a mesa do comedor, dirigindo-se à cozinha, onde – apeteceu-lhe! começou a preparar um chá com bolinhos. “Nada melhor do que um chá, em uma tarde chuvosa como hoje”, considerou. Enquanto as nuvens de chuva – “cumulus nimbus”, diria nossa querida vozinha - escureciam a cidade, o Borracha preparava-se para invadir a casa da velha. Tinha verificado sua rotina: ela não poderia nem conseguiria opor resistência, o corpo e a idade não lhe permitiriam, além do que ela era aposentada e morava sozinha. Os filhos só a viam de meses em meses. “Perfeito, hoje vou fazer a festa”, pensou. Agora mesmo sabia que ela estava provavelmente fazendo algum chá com bolinho, coisa de velha. Sorriu e apertou com força o pé-de-cabra e verificou se a faca continuava consigo. Tudo bem. Borracha, quase sem qualquer cuidados – até para não levantar suspeitas – aproximou-se debaixo da chuva, que já se transformara em tempestade. “Vou fazer uma limpa, só dinheiro e jóias”, susurrou, antegozando o momento que se aproximava…

 

Logo que a velha senhora começou a desfrutar o gosto do chá e dos seus maravilhosos bolinhos – não havia quem não invejasse seus dotes culinários – percebeu claramente o barulho da porta dos fundos sendo forçada. “Ladrão”, teve a cerrteza imediata. O que aconteceria a seguir? Sentiu que alguém entrara na casa. A sensação de desamparo ocorreu-lhe, mas, sabia, tinha de lutar contra a mesma. O telefone mais próximo se encontrava na sala, e era tão antigo quanto a casa. Recriminou-se por não ter comprado um celular, ou um telefone sem fio, o que seria suficiente para si mesma, pois raramente saía. Novo  movimento. A visão periférica da velha senhora acusou: o desconhecido havia, efetivamente, entrado na cozinha.

 

O tempo, a chuva, a escuridão, a própria casa, tudo congelou, tudo ficou momentaneamente suspenso, como se o próprio ar, de repente, ficasse sólido.

 

Borracha ficou tão espantado quanto estático. Do meio do cenário, da xícara de chá, das bolachinhas, dos bolinhos, da velha mão enrugada da sua pretensa vítima brotou uma pistola Taurus PT 59 S calibre 38. Borracha surpreso, parado. O alvo perfeito. Quatro disparos foram feitos. O primeiro atingiu-o no ombro esquerdo, o segundo na articulação do joelho direito, o terceiro  no estomago. Ele se curvou, mas não viu mais nada. O quarto tiro o atingiu no lobo temporal, mas sequer foi registrado. Ele já havia mergulhado para a escuridão.

 

 

 

Dez minutos após ter terminado o chá, a velha senhora dirigiu-se à janela, onde ficou olhando a chuva amainar. Somente após fumar seu cigarro habitual, dirigiu-se lentamente para o telefone da sala. O corpo ainda vertia sangue. “Os peritos vão ter trabalho”, pensou, resignada.

publicado por blogdobesnos às 00:24

02
Abr 12

Homens naufragam todos os dias. Não sei como não são reconhecidos: assemelham-se a esconsos, a tábuas jogadas pelas marés de um lado para outro. Para mim são absolutamente visíveis os seus naufrágios. Ficarão por lá, se debatendo, até o momento em que desaparecerão entre as esquinas, os desvãos, as marquises, os viadutos. Simplesmente sumirão. Em três noites das semanas de inverno eu e Eduardo apanhamos a van da Secretaria de Direitos Humanos e saímos pela cidade procurando nossos náufragos.

 

Muitos se recusam a sair de onde estão, mesmo que mergulhados na mais completa solidão e sentindo o frio enregelar-lhe os ossos. Pensamos, conversamos sobre a natureza humana; procuramos explicações, alternativas, mas isso nem sempre nos alivia o fardo. Há outros, porém, que estão às voltas com tamanho desespero, com tão grande solidão que basta verem os faróis da van que já nos abana, em completa passividade. Então os recolhemos, os levamos para uma noite mais quente, para um prato de sopa, um pedaço de pão, um pouco de proximidade, ainda que fugidia, com uma casa, com um lar.

 

Esses são os mais fáceis de conduzirmos, pois eles querem, desejam por abrigar-se. Não poucas vezes, de si mesmos, até que a luz do sol e os vícios incontáveis os levem de volta para a rua. Não conseguem ficar muito tempo no abrigo, simplesmente são homens-mola: necessitam estar em trânsito, resgatar passos já perdidos, já esmaecidos.

 

Semana passada procuramos o Alemão; seus amigos de bar e de infortúnios disseram que o Alemão havia sumido da cidade, tinha voltado para São Leopoldo. “Como?” foi o que perguntamos. “Pessoas da família dela: vieram para cá, procuraram, procuraram e o encontraram. Disseram que o filho queria vê-lo, ele se foi.”, a informação foi esta. Que Alemão tinha um filho de doze anos, que era insuportável ao garoto não ver o pai, passar ainda mais tempo imaginando onde o pai estaria, qual seria seu destino.

 

A dor foi tanta que os parentes mais próximos decidiram procurar o indigente. Localizaram e o levaram. As notícias que recebíamos eram assim: marcadas pela transitoriedade, sem fontes seguras, um pouco além do boato. De qualquer modo, ficamos felizes. Tomara desse tudo certo e que o Alemão pudesse, enfim, reencontrar-se.

 

O inverno continuava fustigando a todos nós, e havia uma chuva fina, insistente, mas, por alguns intantes, nos sentíamos aquecidos. Eduardo acendeu um cigarro, e, de repente, estávamos em paz.

publicado por blogdobesnos às 23:44

Pneumotórax


Manuel Bandeira

 


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.
…………………………………………………………………………………………………………………………………..
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

publicado por blogdobesnos às 23:40

Carlos Drummond de Andrade

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

publicado por blogdobesnos às 23:14

Escrito, escreva, escrevo, escravo, ex-cravo da tua flor que exala, que doira, que mortifica meus desejos expansivos, se expondo ante as tuas vontades, desígnios, volutas, voluptuosas curvas de mel mascavo aroma da tua pele em olhos de princesa, andas engastando tua poesia nas pedras em que pisas e nelas em mim, tua criatura, teu ser envolvido nos teus balsâmicos braços de morena, acetinada pele, ali eu, aqui eu, acolá talvez onde desejares que eu esteja, que eu te encontre, que eu me esconda, envolto talvez em nada, numa miríade de pontos que me circundem e me mostrem que talvez tua vontade não me queira mais nem que eu esteja envolto em ouro, pedras preciosas, augustas pratas ou em cores de argenta, Argentina, mar del plata, foi lá que te conheci, mar del plata, foi lá que nos encontramos, e talvez ainda fosse melhor se tal predestinação se desse ao findar a noite, talvez devêssemos ter nos visto pela primeira vez em puerto madero, mas não, foi ali, em mar del plata que pus em ti meus olhos pela primeira vez, e foi ali também que, me olhando me pusestes dentro da tua alma, me esvaziando, me deixando oco e imprestável de mim mesmo, como uma toada que se canta no entardecer para homenagear a luz da lua.

 

E foi assim, e foi tão desse jeito que eu te conheci e que me tomastes como um adulto conduz uma criança, pedagogia que conduz os infantes e foi assim que me conduzistes através dos teus olhos e do teu respirar; fiquei então sem jeito, sem graça, sem atitude e todas as minhas antigas experiências, minhas cavalgadas de potro se tornaram assim, lentas e sem sentido e não mais poderia contar nenhuma das minhas aventuras, das minhas falsidades, dos meus meneios de sedução, pois que todos eles eram, para ti, meras fantasias, brincadeiras, jogos de criança, simples entretenimento passível antes de comiseração, antes de curiosidade do que uma endemia, do que a paixão que vulgarmente despertava nas mulheres que possuía e que brincava de esconde-esconde, de jogo de gato e rato, de míseras tragédias edulcoradas, e por isso, e talvez só por isso teu sorriso me encontrava assim, tão vazio, tão oco, tão sem sentido, pois reconhecias em mim o que de mim mesmo buscava ocultar, e sempre busquei, de modo tão ingênuo quanto bem elaborado, mas tudo ingenuidades, as quais depositei em teus pés como delicadas prendas que, inobstante, amassasses com o teu pisar, como quem quisesse enfim dizer livra-te disso tudo, nada me impressiona mais, nada que disseres terá o dom de me seduzir, senão, sobretudo tu mesmo, e eu fiquei pleno de alegria como a lua que preenche o escuro da noite, e, inseguro de minha próxima solidão, vasculhei em mim uma flor que te pudesse ofertar, mas já não era mais flores que querias, e todas que havia já as conhecera, pois no teu olhar furta-cor já encarceraras toda minha alma num átimo, num zás dentro de ti.

 

E assim que agora não olhas mais a mim, pois que já pouco te importo, mas apenas a minha alma, e suas decomposições, e suas mesmices e suas insalubridades que não posso mais esconder, que não pretendo mais alienar de teu conhecimento, tu que me sabes como o mago conhece os encantamentos, como os ventos guiam as nuvens, como os dias se sucedem de modo tão temporal, e nada mais te faz tão íntima de mim do que a tua própria vontade de, em me vendo, decidir por ignorar-me ou por trazer-me junto ao teu espírito, convencida, e com toda razão, de que nada mais posso fazer senão agregar-me a ti como quem, em desespero, firma a mão em um pedaço de barco, buscando não afogar-se, buscando fugir ao movimento do mar, ao seu vaivém que sentencia momentos de intensa agonia, e assim aguardo em ti talvez minha redenção, menos ainda meus apelos, para tua presença que desvenda a minha, que me cala, que me torna assim tão absolutamente amorável e sem qualquer trava de ressentimentos. Estou em ti estampado como uma carta escrita de coração aos filhos, como uma declaração que se faz sem qualquer desejo que não seja o que a alma expressa, aguardo por ti assim como quem faz um movimento, uma braçada em direção ao outro lado da margem, da represa, do lago, do oceano, eu, totalmente nu enfrentando, talvez, as divergências das correntezas que me jogam para cá, para lá, que querem a toda vontade derrubar-me de meus desejos, de minhas vontades, mas mesmo assim, cá estou eu, aguardando por ti.

Talvez como o sol aguarde, sem dúvida, a primavera.

publicado por blogdobesnos às 15:06

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