Escritos para você

25
Mar 12

Penso como uma peça de estanho, busco em tua vida o que restou da minha. Lembro-me, sempre, de como aconteceu a minha morte, meu derradeiro alento. A lâmina penetrou profundamente em minha carne; primeiro em meu braço, mas eu ainda vivia, depois meu fígado e rins foram golpeados, mas mesmo assim eu lutava desesperadamente, até que, finalmente, abandonei-me ao torpor quando a quarta facada feriu minha jugular.


Esvaí-me como uma vela se apagando, e apenas restou de mim o que agora sou. Algo que vagueia. Meu ódio é tão grande que necessito agora, quase como se fosse uma nova vida, buscar as tuas vidas, aquelas que ocultastes de mim, as que me escondesses, me condenando a ser o que agora sou. Agora percebo que não vivestes apenas uma vez, mas muitas, que não eras apenas quem eu conhecia, mas que teu corpo apenas era uma lembrança a mais entre todas as vidas que já tivestes. Em todas elas, de algum modo, já me matastes, ou de amor ou de compaixão. Sempre fui tua vítima, sempre fosses minha algoz.

Por ora já te encontrei algumas vezes, mas por mais que eu fizesse, sequer notasses minha presença. Te busquei na tua casa, na odiosa casa onde fazes jantas amorosas para tua família, onde teu homem se refestela em teu corpo macio e delicioso que já me pertenceu. Fostes tu que me mandastes matar, por puro medo. Medo de perder o teu homem, os teus vestidos, os teus broches, as tuas jóias; medo de perder teu filho, de ver escapar entre tuas mãos adoráveis o que conseguistes graças às tuas seduções.


De onde estou, posso ver tudo, inclusive o que pensavas e pensas de mim. As tuas preocupações quanto a ligarem minha morte à tua pessoa. Ah, se eu pudesse gritar! Se pudesse ser ouvido! Todos saberiam como és vil, maliciosa, como usas de teus maneirismos para conseguir o que queres, quanto és capciosa e quanto o ardil habita teus seios e tua mente insidiosa! Mas, de onde estou, ninguém me ouve. Mais uma vez estou só.


Desloco-me entre as paredes de tua sala, te vejo dormir. Quanto a mim, não durmo mais, não descanso, não amo, não falo nem sussurro e apenas o ódio me nutre, me deixa rígido como uma pedra. Não tenho fome, nem sede; não tenho compaixão nem solidariedade. Sou uma essência de tormenta, sou um ser sem qualquer ligação com o mundo e se não passo de uma lembrança mais ou menos chorosa para os meus, devo isso a ti, que encomendaste a minha morte, e pagou a mão do assassino.


Não havia amor entre nós, isso nunca houve, apenas paixão, desejo, vontade de sexo, como se fossemos dois animais. Éramos assim, dois corpos que vadiavam juntos durante o tempo que podíamos. Uma unidade é o que éramos. Houve, contudo o momento em que nos separamos; e daí para diante te recusastes a me receber e a sequer falar comigo. De amante passei a ser temido, porque te poderia denunciar.


Aproveitei, sim, – claro! – aproveitei a situação: passei a te extorquir dinheiro, para gastar com outras e para te humilhar. Me suplicastes, lágrimas nos olhos (grande hipócrita!) para que eu te deixasse em paz, mas não te escutei e, de novo, te tomei o corpo e mais um pouco de teu dinheiro. Foi a última vez das muitas em que te possuí, mas estavas apenas entregando teu corpo, pois tua mente não mais era minha.


Então me mandaste matar. Tudo quanto passei, apenas uma certeza me acorre: vais pagar. É o que me embala, o que me nutre, o que me espanta e me acalenta: tomar a tua vida como mandastes tomar a minha. O que me poderia impedir é o sentimento que te devotei, mas, como tu mesma, ele era falso. Sempre fomos falsos, mentirosos, subreptícios, maldosos.


Não sei qual de nós é o mais falso, mas o brilho do meu ódio não. Esse, sem dúvida, é verdadeiro, como verdadeiro era o brilho da lâmina que me feriu e que me pôs aqui, absolutamente só, tão amargamente triste como uma pequena ferida a ferro e fogo, que não cicatriza. Somente me sustenta a tua lembrança e, alegre, já planejo, aqui, minha derradeira vitória.

 

publicado por blogdobesnos às 19:36

Escrito em 30 de julho de 2007

 

1

 

Marla, ao chegar ao seu apartamento, mesmo antes de abrir a porta, ficou alerta: claramente ouviu o seu cd player tocando. Cuidadosamente entrou, mas logo se arrependeu: houvesse alguém, poderia tê-la facilmente dominado. No entanto, apenas havia o som que provinha do aparelho. Marla vasculhou o imóvel, mas não encontrou absolutamente nada fora do lugar. A cozinha permanecia do mesmo jeito que a havia deixado, ainda com a xícara do café da manhã e alguns poucos pratos para lavar. No quarto, a cama estava arrumada, e havia, na sala, uns dois ou três descansos para a cabeça jogados indolentemente, por aqui e por ali. Tudo normal, Aproximou-se do aparelho e retirou o cd: I love MPB: Maria Bethânia. Umvd Import, 2004. Recolocou-o e acionou o mecanismo. Há muito não o escutava e, já mais tranqüila, resolveu fazê-lo. Gostava muito de Bethânia, e sabia de cor todas as letras das músicas. Também tinha uma noção muito clara da seqüência delas. Ligou o som em volume alto e decidiu tomar um banho.

 

“Muito quente”, pensava enquanto se banhava. Sentia-se bem, e embora não pudesse explicar porque o cd estava ligado quando chegara em casa, atribuiu o fato a uma simples distração. “De vez em quando a memória nos engana…” Era uma oportunidade rara de conforto àquela que se dispusera. No banheiro, despiu-se não apenas das roupas, mas também procurou afastar todos os pensamentos de rotina de trabalho. Queria, de repente, dar-se esse descanso. Bethânia continuava no CD, e era como que uma presença querida que a embalava, que lhe deixava feliz. Fechou os olhos, pensou em coisas agradáveis, enquanto ouvia “…a fé no que virá e a alegria de poder olhar prá trás, e ver que voltaria com você de novo a viver nesse imenso salão, ao som desse bolero, a vida, vamos nós, e não estamos sós, veja meu bem, a orquestra nos espera, por favor mais uma vez, MALDITA! MALDITA SEJAS TU RENEGADA!” O grito rouco, odioso, claro e alto, a atingiu como um trem. O susto fez com que Marla perdesse o equilíbrio e batesse violentamente com a cabeça na parede, abrindo-lhe um sulco na nuca. Desesperada, com a adrenalina e o terror a tomar-lhe o corpo, tentou se proteger, mas a visão do sangue entorpeceu-a e mergulhou-a em um desmaio enlouquecedor. Na sala, a música continuava: recomeçar…

 

2

 

Três dias após Marla foi consultar o médico; ainda sofria com hematomas, mas sua maior angústia provinha da desestabilização emocional que sofrera. Dez anos trabalhando na mesma indústria, uma carreira que, na época em que seu pai trabalhava, chamar-se-ía de assegurada, mas que hoje em dia dependia de uma infinidade de fatores que ela sequer poderia alcançar… Apartamento próprio, relações intensas, mas fugidias, Marla pensava em tantas coisas, e as lembranças a alcançavam a todo instante, mescladas com preocupações do dia-a-dia, e com uma insegurança que fazia com que as suas mãos ficassem úmidas, gélidas. Finalmente chegara. Manobrou o carro e colocou-o em um dos boxes da garagem que servia ao consultório médico. “Nada como ter dinheiro para pagar esses confortos”, pensou. Entrou diretamente no elevador, e de repente, passou a sentir uma perturbação que tentou afastar. Teclou na campainha, que abriu a porta. A secretária atendeu-a gentilmente e perguntou se não desejaria um cafezinho.

 

O consultório era bem decorado, o que fez com que ela se sentisse bem. Pegou uma revista ao acaso e tentou se concentrar no que lia, fosse o que fosse. Novamente sentiu-se incomodada. Não era nada visível, não era nada real, mas algo ali não estava bem. Desconcertada, jogou-se à leitura. Depois de um tempo indefinido (dez, vinte minutos, uma hora), a voz da secretária chamou-a. O médico era um homem já maduro e iniciou com uma entrevista preambular (diagnose, no jargão médico) para poder entender o que havia acontecido. Ela contou exatamente o que ocorrera, da sua chegada em casa, do cd ligado, do banho… Subitamente estancou. Havia algo indefinido naquele médico…algo que transcendia a consulta. Sim, agora se dera conta: não tinha conseguido olhar nos olhos dele… mas prosseguiu. Novamente o olhar dele agora aparecia como que embaçado, e ela se deu conta de que era a iluminação. Havia um ponto de luz que incidia diretamente sob os olhos dele. Tranqüilizou-se e prosseguiu. Agora sim, ele finalmente falaria. Ele pigarreou e disse: Senhora Marla, entendo o que a trouxe aqui – a voz era profunda, grave, mas ao mesmo tempo suave – No entanto – ele prosseguia – não há nenhum outro episódio, segundo a senhora relatou, que me pudesse fazer pensar em algum tipo de surto psicológico, a não ser que algo tenha ocorrido que não tenha me relatado.

 

Marla estranhou aquele tipo de argumento, pois ela tinha falado muito, tinha explicado além do que ele lhe havia solicitado. A entrevista incluíra um passeio breve sobre a sua vida, sobre as dificuldades que enfrentara inclusive em termos afetivos e psicológicos em relação a seus pais: a decisão de ir morar sozinha, as reclamações constantes que sua mãe lhe dirigira, o afastamento e a indiferença de seu pai, a dor que lhe causara o rompimento com ambos. O que esquecera, se além disso juntara todos os detalhes do que lhe havia sucedido três dias antes? Procurava agora se esforçar, o médico agora falava em “traumas”, “hipossuficiências afetivas”, e de repente passou a se sentir confusa. O que ela estaria “escondendo” como se fora algo do qual quisera se refugiar ( a memória prefere esconder os traumas, relegando-os ao inconsciente, lera em um livro de psicologia), algo de que não quisesse se lembrar?

 

As perguntas íam e vinham como se fossem novos tecidos sendo criados a cada instante, pedaços de memórias dispersas, uma sensação de angústia que a corroía a cada minuto que passava. O médico se levantara e passeava pelo consultório. Você não sabe, mas eu sei! A voz veio brotando como uma lâmina, por detrás dela. Automaticamente os pelos de sua nuca se eriçaram, enquanto o sangue congelava e ela toda colava à poltrona. A mesma voz de há três dias atrás! Enlouqueida, com o coração a disparar, não teve coragem de balbuciar mais nada. “Eu sei o que você esconde, eu sei o que você não sabe, eu sei dos assassinatos, das mortes todas, dos passeios noturnos, e estou aqui para ficar junto à você! Olha – a voz agora era um grito – olha pra mim!”Lentamente Marla voltou a cabeça. Do fundo do consultório, olhos amarelos a fitavam.

 

3

 

O chá fumegava enquanto Marla caminhava pela sua cozinha. Era preciso pegar a chaleira, era preciso despejá-la, era preciso apanhar a xícara (onde?) no armário, pô-la sobre a mesa, depois apanhar o açúcar, despejá-lo e, finalmente, com muito cuidado, beber a infusão. Assim, com calma, com muita calma, para não despejar o líquido fervendo sobre ela própria, como já acontecera.. Lentamente, lentamente. Primeiro o chá, depois as bolachas, era preciso esquecer do demais, do apartamento, do banho, do trabalho, da vida, dos amantes que tivera em sua vida, dos dois abortos, era preciso esquecer de tudo e concentrar-se unicamente em beber o chá, beber o chá, beber o chá…Depois, levantar, ir para – para onde? Levantar porque? Fazer o que? Os olhos amarelos a fitavam cada vez que ela fechava seus próprios olhos: terror infinito. No cd player, Bethânia continuava contando histórias de amor. No céu, uma estrela prateada cortava a noite, enquanto o vento açulava os transeuntes e esfumava de uma vez por todas a mulher que, até semanas atrás, Marla havia sido.

publicado por blogdobesnos às 19:28

23
Mar 12

Escrito em 17-04-2005


Hoje vi uma mulher, se é que se pode chamá-la de mulher; não já não era uma mulher, não dessas que a gente acha bonita, ou feia, ou desinteressante, ou das que carregam o mundo e as obrigações nas costas, como se tudo fosse um fardo enorme entranhado em suas próprias vísceras, obscenidades que se acumulam sobre os ombros delas, das senhoras, das eleitas para terem os filhos, para lhes cuidarem da educação, para lhe molestarem a paciência, porque mães muitas vezes desconhecem sequer os espelhos que mostram-lhes os filhos já grandes já desejando outras mulheres, menos maternais; mas, bem, então o que eu vi, se não era uma dessas mulheres a quem tanto amei, desejei ou fiquei indiferente, o que era então?

 

Era algo, que apenas tinha a forma de uma mulher, a forma indistinta de uma mulher, seus cabelos, suas alturas, suas ancas e seus formatos de seios; contudo, essa criatura trajava vestes imundas, trapos que mais ainda maceravam qualquer possibilidade de que fosse uma mulher, fantasias dramaticamente expondo sua miserabilidade maior, sua exposição de tristeza, sua desesperança completa em tudo em todos, inclusive em Deus, aquele grande bosta, aquele anjo vingador que havia roubado, furtado àquela toda e qualquer esperança e a mínima vontade ou possibilidade de ser feliz; e lá ia ela, a louca, a desvairada, a impura, a monte-de-trapos, mais uma das vacas que adejam nos campos de esterco com os quais uma boa parte das cidades-grandes são constituídas.

 

Essa mulher, essa coisa, esse ser desprovido de sanidade, de humildade, de compostura, de bom caráter, de savoir faire, essa biltre, cadelinha barata, contudo ainda uma mulher, pois gritava em língua portuguesa impropérios de baixo, médio e grandes calões, trazia em sua mão direita um pedaço enorme de pau, e ia assim, a obcena, segurando aquele pau enquanto as pessoas passavam e se afastavam, e enquanto a chusma de machos dizia gracinhas e ria do andar inusitado daquela pessoa; então ela, passando por uma carreira de automóveis que estavam estacionados sob a calçada gritou algumas palavras que não entendi, e bateu com aquele pau no capô de um dos carros, de um dos belíssimos carros, este era da cor azul-marinho e ela bateu duas vezes no capô com toda a força que seus nervos ainda podiam suportar, e dizendo palavrões e vomitando obcenidades continuou andando como se nada tivesse acontecido.


Ali, ninguém a viu fazer aquilo, porque ocorreu um daqueles momentos mágicos e apenas eu pude ver o que ocorreu. No entanto eu sequer reagi, porque aquilo era bem mais do que eu tinha observado, porque ali estava mais do que o escrito, mais do que o explícito, ali estava a bestialidade, a revolta, a coragem suicida de quem nada tem a perder, ou ganhar, ou comer ou mesmo raciocinar. E o meu espanto inicial pela cena passou então a ser nada mais do que compaixão e profunda pena.


Não por ela, por nós.

publicado por blogdobesnos às 14:15

Há tempos que eu queria tatuar-me e, pensando se deveria ou não fazê-lo, refleti nas inesperadas conseqüências de se falar com a pele. Porque tatuar é falar, não é? Não tenho com quem conversar, mas uma tatuagem poderia dizer o quanto me sinto sozinho. Penso… será que eu e minha tatuagem conversaremos? Essas cicatrizes não me deixarão ainda mais só? Não freqüento a mídia, nem as galerias de arte; não sou político, nem jogador de futebol, portanto, esse desejo não é um nenhumgolpe publicitário. Minha decisão de tatuar-me reside apenas na vontade de não afastar, nem que seja por um pouco, a solidão na qual estou prisioneiro.

 

Sou um homem que, amadurecido,já viveu o bastante para saber que o tempo não apenas devora tudo, mas, especialmente, vai apagando algumas memórias que me são muito caras. Sinto que progressivamente minhas recordações me abandonam, como me abandonaram os filhos, um a um.


Cada um deles possui suas razões, cada um deles também tem sua família. Os netos, igualmente, pouco me vêem. É claro que nas datas festivas fazem o possível para olhar o pai, o avô, e homenageá-lo, cada um de seu modo. Quando as festas se vão, igualmente eles partem, como o movimento contínuo das marés; eu fico aqui, imerso em meus pensamentos que também, a cada dia, mais se ausentam das minhas percepções.

 

Continuo elegendo um espaço de tempo para a leitura, pois até mesmo o computador, que manejava com uma certa destreza, atualmente me enfada. Minha velha paixão pelos livros retornou há cinco, seis anos Prefiro sentir o cheiro das capas e de suas folhas do que a da luz infinitamente gélida de um monitor. Os livros me devolvem algumas de minhas memórias, me mostram que aindaestou vivo. Mas afinal, quando se está só, está-se realmente vivo?

 

Aposentei-me há muitos anos. Minha amada se foi antes de mim e dela são as minhas recordações mais prementes. O seu cheiro, suas risadas e mesmo seus amuos. Construímos uma história tecida de sonhos, de belezas entremeadas aqui e ali de alguns desapontamentos e mesmo de desilusões. Quando, à noite, mergulho em meus sonos breves e entrecortados, seu rosto e seu sorriso é o que mais vem se juntar a mim. A morte que levou-a e acabou com minha paz fez-me intuir que deveria preparar-me para encontrá-la. No entanto, passaram-se anos e nada mais tenho a reconstruir, senão a sua ausência. Quando as noites caem, muitas vezes apanho meu carro(ainda dirijo, posso garantir) e circulo sem rumo pela cidade. Todos me alertam quanto aos riscos que corro, mas, de certo tempo para cá, não sei se faria tanto mal ser surpreendido por algum perigo…

 

Numa noite dessas, sentei-me diante da tela fria de um computador. Num desses sítios de busca, lancei de pronto “tatuagem”, o verbete “tatuagem”. Há sete anos esse verbete me persegue e me assombra. Digo, também, que há sete anos esse verbete me instiga a escrever no corpo, um nome. Muito calmamente pensei, arquitetei, escolhi a melhor pele do meu corpo cansado.Tatuar-me? Há alguns meses, na Cultura, deparei-me com um capa vermelha de um livro que me parecia convidativo. O corpo em performance… Resolvi me tatuar. Inscrever o nome de minha amada sobre meu corpo de modo que jamais pudesse esquecer. A cada vez que lesse o que em minha carne ficaria gravado, retornariam as memórias, os beijos, as pequenas rusgas, e , com o recordar viriam, também, a infância dos filhos, os momentos que me orientaram como pai, os pequenos movimentos que fazemos diuturnamente e que são devorados com o romper dos anos. Viveria tudo de novo.

 

“Tatoo Press”, what that means? pensei eu quando entrei no ambiente acanhado, mas imensamente iluminado, onde exibiam-se desenhos e alguns posteres improváveis na parede. Imprensa tatuada? Não sei precisar se estava correta a minha literal tradução do inglês. Uma bela moça veio me atender, certamente, pelo sorriso, entendi que  ela pensava que, inadvertidamente, eu havia entrado na porta errada… “Não”, eu disse “eu quero tatuar a minha pele.” O espanto traduziu-se, em princípio, por um alçar de sombrancelhas, que emolduravam belos olhos castanhos. “Sim, quero fazer uma tatuagem, enfim, saber os detalhes, o que é necessário, quanto custa, etc”.

 

Dias depois eu tinha uma inscrição no meu antebraço. Mandei fazer um coração, como uma moldura. Dentro, o nome da minha amada e, abaixo do conjunto, emoldurado por uma lua azulada, o nome de dois locais de minha intensa recordação afetiva. Se senti dor? Claro que sim! Mas, de certa maneira, a dor é uma amiga que á me acompanha pela vida… mais próxima nos últimos anos.

 

Imagino, entre curioso e divertido, o que meus filhos e meus amigos irão dizer quando testemunharem a minha morte, quando enfim eu me for, e, só nesse momento, poderem ver minha tatuagem. Não contei para ninguém que me tatuei e guardo, comigo, como um mapa do tesouro, as pequenas cicatrizes coloridas na minha pele. Um derradeiro segredo, uma fonte de volúpia. Apenas quando me banho revelo para mim mesmo as marcas que mandei fazer em meu corpo. Converso de vez em quando com essas inscrições como se fossem uma amiga cálida, como se elas sempre tivessem estado ali.

 

De certo modo, a conversa com minhas tatuagens mantém minha mente ativa, porque na escuta… É um espelho que me recorda, ainda, o que de melhor em minha vida eu experimentei e disso eu posso contar. Dia desses, calor abrasivo, voltei à Cultura e procurei o livro que me deu a idéia da tatuagem. Lá estava o artigo na página 97, “Tatuagens e cicatrizes: performances narrativas na contemporaneidade”. A autora, das terras distantes de Minas, Lyslei, Lyslei Nascimento, nascimento… Que nome estranho para se ter em Minas… Em casa, com o livro a minha cabeceira, adormeci e parece que não sonhei… Quando o dia nasceu, demorei-me ainda a contemplar o pequeno livro vermelho e, junto a ele, minha inconcebível inscrição. Após tantos anos, nunca me sentira tão bem.

publicado por blogdobesnos às 13:43

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