Escritos para você

25
Mar 12

As sombras destas noites de inverno são diferentes das que sempre vi. O vento fustiga, geme, grita, e o frio praticamente me empurra para a cama. A casa se dobra a ruídos estranhos, que lembram animais escavando paredes e andando sob o tetos da casa; aqui e ali pregos deixam de ser silentes, enquanto o madeirame, de repente estala. Tudo o mais é silêncio. Acomodo-me na cama, e – penso – nem todos os cobertores e edredons do mundo seriam suficientes para me aquecer.

 

Depois de algum tempo, foco minha atenção na porta do banheiro, parcialmente aberta e cuja luz deixei acesa, enquanto escuto o vento. Parece existir uma névoa dentro de casa; de vez em quanto o ar seco combinado com o frio pode ser impressionante. Busco ser racional, pelo menos por agora. Quero evitar que a solidão me tome o peito, aumentando minha desolação. O frio permanece, e um sentimento de abandono me põe em desconforto.

 

Estou aqui, me aquecendo, e o torpor do sono me acorre. Quando fico assim, modorrento, a sensação é de me abandonar. É então que, novamente a vejo: a sombra negra que rapidamente atravessa a nesga de luz do banheiro. Meu coração se assalta, e é assim que a vejo, mais com os olhos da mente do que com uma completa integridade de visão. Lá está ela: intensamente negra, deslizante, de um negro que me parece mesmo sólido, e que gela o sangue. Escuto, ainda, um ruído, um rascar que me lembra ossos se partindo, e me encolho mais ainda, totalmente atormentado e em pânico.

 

O interruptor da luz está aqui, ao alcance da minha mão, mas parece infinitamente distante. Não consigo mover meu braço para acender a luz. A adrenalina se espalha pelo meu corpo como uma lâmina de água escorrendo no plano. Estou assim, quieto, olhos totalmente abertos agora. O medo me oprime o peito. É quando, do banheiro, escuto o chuveiro sendo ligado. Alguma coisa está ali dentro. O calor do edredon me envolve, e eu me sinto como que afogando em meu próprio suor. Posso sentir meu coração quase que explodindo, quando olho para o banheiro e várias sombras negras se deslocam em minha direção. Quase tão reais quanto apavoradoras. Na mão de uma delas algo faísca. Um punhal! Cerro os olhos e, desesperadamente, sinto que o sono me engolirá. Para sempre.

 

publicado por blogdobesnos às 21:43

O homem observou uma réstea de sol cruzar a vidraça da janela da sala e transformar a poeira em suspensão no ar em grãos dourados. Dando-se conta do milagre ficou ali, quieto, observando o ouro magnífico ante seus olhos. Ali estava uma brincadeira do sol. E a lua, será que quando tecia seus mantos de luz sobre as planícies, sobre os mares, também estava brincando? Ou seria mais que isso?


Pensou então em quantas vezes tomara poeiras em suspensão por ouro… Quantas vezes a ilusão tomara-o tão fortemente que perdera a noção do que era real e do que era apenas a projeção de seus desejos. Mulheres, ópios, um pouco de histórias de carteados, um acúmulo de esperanças, o dinheiro, o dinheiro, taças de cristal e de repente tudo vinha-lhe à mente: poeiras ao invés de grãos dourados.


De repente a tristeza tomou conta de sua alma e foi uma sensação tão forte que o coração ficou espremido, lá no fundo do peito, enquanto a melancolia tomava-o por inteiro. Ele estava mal, sim, ele não estava bem, claro que não, como poderia apenas uma simples observação causar-lhe tanto mal estar? Não, efetivamente havia alguma coisa muito profunda, perturbadora mesmo que o corroía, que o deixava tão sem-chão, com uma terrível sensação de abandono e de vertigem.


Levantou-se, caminhou para o centro da réstea de luz dourada. Desligou o celular e o telefone. Fechou os olhos e deixou-se ficar ali, recebendo o sol por um tempo que ele não saberia precisar. Nunca pensara nisso antes, mas a idéia de ser um pó, uma partícula, uma fímbria e de alguma forma captar-se a si próprio em um momento único de imolação começara a lhe parecer terrivelmente sedutora.

publicado por blogdobesnos às 21:26

Ontem tive tempo e fui almoçar em casa. No outono em Porto Alegre é assim: calor onde o sol alcança e frio onde houver sombra, às vezes com uma diferença de quase dez graus centígrados entre as áreas. Constipadamente simples. Estou há uns dois quarteirões de casa. Como já passa do meio-dia alguns trabalhadores estão sentados por aqui, perto dos muros, encostados nas paredes, sentados nos meio-fios, fumando um cigarro, contando histórias.

 

De repente, ela aparece. “Ela”, no caso é uma menina absolutamente bela, com uma idade indefinível entre dezessete e vinte e dois, com cabelos castanho-claros combinando com a cor dos olhos

 

.Evidentemente que, ao ver tão adorável criatura, todas as cabeças masculinas (perdão pela machista obviedade) se voltam para vê-la, como se o sol, momentâneo e de modo fugidio passasse a brilhar intensamente. À sua passagem, observo dois amigos que, sentados ao meio fio, acompanham atentamente a menina, que poderia ser uma garota. De Ipanema, claro. É quando um deles diz, com aquela experiência de lobo:

 

- É, e aí, compadre não tem silicone…

publicado por blogdobesnos às 21:07

Tarveiz, seu moço, eu num consiga dizê bem o que quero, até purquê não istudei prá isso. No interior, ondi nóis morava, era muito atrasado. Meu pai trabaiava in uma fazenda, mais também era pião e passava os dia cuidando de cavalo, pialando prá cá e prá lá – mas isso num interessa, né? U qui interessa é purquê eu vim pará nessa Vila. Pois o meu namorado, depois meu marido tinha uns parente puraqui – qué dizê, puraqui não, né, mais em Viamão.


Intão casemu nu interior, e fúmu prá Viamão. No início foi bom, eu não conhecia nada. Depois meu marido ficou desempregado, e foi na época in qui nasceu u Márcio. Olha, moço, passemu muito problema, meu marido Severo adueceu, e nunca mais conseguiu se empregá. Isso foi desdiqui u Severo teve um acidente – ele ía atravessandu na Farrapos i um ônibus pegô ele. Nunca mais foi u mesmu.


Sem trabaio, sem nada, sem dinheiro prá vortá pru interior, acabemu sabendu dessa Vila aqui em Portu Alegre. Vendemu u pôco que nóis tinha e viêmu prá cá. Paguemu us réis qui nus sobraro i nus instalemu.


Nu início foi muito complicado. Da avenida tinha só u nome, e, prá saí daqui, nóis tinha qui isperá muito tempo. Depois, cu’m tempu, veio a luiz, e mais gente passo a morá aqui. Us filhu foram cresceno, – u Márcio já tinha deiz anu, e a Edviges, sete. Daí as coisa foram melhoran’u,. eu tinha faxina certa prá faze.
….
Não, quéissu! Nem u Márcio nem a Dviges puderu istudá. U qui a genti ganhava di manhã comia di noite, e era assim. Até qui fui trabaiá na casa da dona Sara, qui era judia – prá dizê bem a verdade, moço, nem sabia o qui era judeu, só qu’êles tinham matadu Cristu, que me diziam lá nu interior, mas, como sô di religião, não m’importava muito.


Fiquei cuase vintianu trabalhanu c’a Dona Sara, e aprendi muito. No natal deles, a gente ganhava comida, uns pão trançadu, e sempre que pudia a Dona Sara mandava coisa prás criança, rôpa, brinquedu, u qui désse. Depois a Dona Sara i u seu Abrão encaminháru imprego prô Márcio, qui passô a trabaiá na loja do seu Abrão, i hoje tá casadu com minha nora Ilaci – é, sim, eu já tenho dois néto! U Márcio virô gerenti da loja i ganha bem, tem seu carrinho, compráru casa na Restinga, graças ao seu Abrão e a Dona Sara.


Quandu a Dviges casô, elis ajudaro na festa, e até a lua de mel deru prá guria, qui sempri foi da cabeça virada, e hoje vívi c’um português dono di uma farmácia no Partenon. Eu, depois, num dava mais prá trabaiá, foi mi crescenu uma dor nas costa, qui cada dia tá pior. Aí, mi aposentei, mas meus filhu tâo criado, graças a Deus.


Si num fosse a Dona Sara i u seu Abrão, num sei o qui pudia tê acontecido. Êlis morava numa casa lá na Osvaldu Aranha, depois si mudaro pá Protásio. Mais uma coisa qui m’impressionava naquela gente era as istória qu’elis contava, i parecia romance. Tevi uma veiz Qui o seu Abrão falô sobri uma matança qui ôve na raça deles – u tal de olocausto. Era uma noiti fria, i eu tinha ficado até mais tarde, e, depois da janta, ele mi contô a istória, prá mim contá pros meus filhu. Teve uma hora qui ele me mostrô uma tatuagem qui tinha nu braço esquerdo, e foi a única vez que eu vi o seu Abrão chorá. Até hoje não contei a istória prôs meus filho, muito, muito triste, seu moço.


Mais um dia, seu moço, um dia tarveiz eu conti.

publicado por blogdobesnos às 21:03

Quando meu filho Gabriel tinha 10 anos, era aluno da 4ª série do Colégio Israelita Brasileiro e escreveu este conto, que foi publicado no Jornal Informativo do Bairro Santana, na página 2. Publico agora como uma homenagem, pois guardei a edição do jornal desde novembro de 1993. Hilton.


BRASIL 


Um dia um menino olhou para o chão e disse: essa terra eu amo e não a deixo jamais. Ele pisava sobre o Brasil. Não tinha feijão, para saborear. Não tinha nenhum Legoland System para brincar nas tardes de domingo. Não tinha um rosto limpo para sair nas páginas do Gasparotto. Não tinha mordomo que o levasse por cima de um tapete vermelho até seu quarto. Era “mais um” para pedir esmola nas esquinas. Era mais um para sonhar com as aventuras pelo mundo afora. Era mais um que vivia a vender pé-de-moleque e mandolate nas ruas com o dever de trazer 200 ou 300 “pila” para a casa. Ou, senão, apanhava com vontade.

 

Meu personagem não é um herói, é apenas “mais um” que vive no Brasil. Só que nesta história entra um outro personagem que tudo tinha. E dizia com vontade que o Brasil era uma droga. Este personagem, nem sabia se Brasil se escrevia com “Z” ou com “S”. Ele não tinha vontade de gostar do Brasil. Não ouvia Chico Bujarque e nem Bethania. Não se interessava em saber quem era Caetano Veloso. Já tinha ido seis vezes à Disney mas não se interessava em conhecer o Brasil.

 

O pobre se chamava “Frendo” e o rico, “Fando”. O fim desta história é simples: enquanto o Brasil não toma jeito, a rotina é: Frendo sofrendo e Fando surfando.

 

 

publicado por blogdobesnos às 20:35

Quando meu filho Gabriel tinha 10 anos, ele escreveu este conto, que foi publicado no Jornal Informativo do Bairro Santana, na página 2. Não houve qualquer interferência minha no texto. Publico agora como uma homenagem, pois guardei a edição do jornal desde novembro de 1993. Hilton.


BRASIL

 


Um dia um menino olhou para o chão e disse: essa terra eu amo e não a deixo jamais. Ele pisava sobre o Brasil. Não tinha feijão, para saborear. Não tinha nenhum Legoland System para brincar nas tardes de domingo. Não tinha um rosto limpo para sair nas páginas do Gasparotto. Não tinha mordomo que o levasse por cima de um tapete vermelho até seu quarto. Era “mais um” para pedir esmola nas esquinas. Era mais um para sonhar com as aventuras pelo mundo afora. Era mais um que vivia a vender pé-de-moleque e mandolate nas ruas com o dever de trazer 200 ou 300 “pila” para a casa. Ou, senão, apanhava com vontade.

 

Meu personagem não é um herói, é apenas “mais um” que vive no Brasil. Só que nesta história entra um outro personagem que tudo tinha. E dizia com vontade que o Brasil era uma droga. Este personagem, nem sabia se Brasil se escrevia com “Z” ou com “S”. Ele não tinha vontade de gostar do Brasil. Não ouvia Chico Bujarque e nem Bethania. Não se interessava em saber quem era Caetano Veloso. Já tinha ido seis vezes à Disney mas não se interessava em conhecer o Brasil.

 

O pobre se chamava “Frendo” e o rico, “Fando”. O fim desta história é simples: enquanto o Brasil não toma jeito, a rotina é: Frendo sofrendo e Fando surfando.

 

 

Gabriel Besnos, 10 anos, aluno da 4ª série do Colégio Israelita Brasileiro, POA/RS.

publicado por blogdobesnos às 20:34

Quando meu filho Gabriel tinha 10 anos, ele escreveu este conto, que foi publicado no Jornal Informativo do Bairro Santana, na página 2. Não houve qualquer interferência minha no texto. Publico agora como uma homenagem, pois guardei a edição do jornal desde novembro de 1993. Hilton.


BRASIL

 


Um dia um menino olhou para o chão e disse: essa terra eu amo e não a deixo jamais. Ele pisava sobre o Brasil. Não tinha feijão, para saborear. Não tinha nenhum Legoland System para brincar nas tardes de domingo. Não tinha um rosto limpo para sair nas páginas do Gasparotto. Não tinha mordomo que o levasse por cima de um tapete vermelho até seu quarto.

 

Era “mais um” para pedir esmola nas esquinas. Era mais um para sonhar com as aventuras pelo mundo afora. Era mais um que vivia a vender pé-de-moleque e mandolate nas ruas com o dever de trazer 200 ou 300 “pila” para a casa. Ou, senão, apanhava com vontade.

 

Meu personagem não é um herói, é apenas “mais um” que vive no Brasil. Só que nesta história entra um outro personagem que tudo tinha. E dizia com vontade que o Brasil era uma droga. Este personagem, nem sabia se Brasil se escrevia com “Z” ou com “S”. Ele não tinha vontade de gostar do Brasil. Não ouvia Chico Bujarque e nem Bethania. Não se interessava em saber quem era Caetano Veloso. Já tinha ido seis vezes à Disney mas não se interessava em conhecer o Brasil.

 

O pobre se chamava “Frendo” e o rico, “Fando”. O fim desta história é simples: enquanto o Brasil não toma jeito, a rotina é: Frendo sofrendo e Fando surfando.

 

 

Gabriel Besnos, 10 anos, aluno da 4ª série do Colégio Israelita Brasileiro, POA/RS.

publicado por blogdobesnos às 20:27

24 de julho de 2007

 

Era uma vez uma tartaruga muito bonita, mas ela achava que não era muito bonita, porque era muito verde. E assim, ela passava os dias infeliz, nem pulava nas águas bem azuis do lago onde morava e nem conversava com as outras tartarugas.

 

Ela se chamava Adélia, mas as outras tartaruguinhas lhe apelidaram de azeitona, então ela se sentia anda pior. O que era uma azeitona, isso a Adélia não sabia, mas não devia ser alguma coisa muito boa. A-ZEI-TO-NA, que nome esquisito…

 

Uma tarde, houve um grande barulho nas águas do lago; um grande pássaro vermelho caíra na água, e fui uma grande confusão. Sem pensar duas vezes, Adélia se jogou na água e salvou o pássaro, carregando-o nas suas costas grandes e seguras.

 

O pássaro se chamava Gaspar e disse que tinha ficado muito satisfeito, e que iria recompensar Adélia, levando-a para voar e conhecer outras terras.

Foi só aí que Adélia viu como os campos, as planícies eram verdes, como as pessoas adoravam as árvores e as matas todas em diversos tons de verde. Então Gaspar levou a tartaruguinha para visitar uma plantação de oliveiras, que é o lugar onde se produz azeitona, e viu que da azeitona se faz óleo para alimento e que a azeitona é muito apreciada por todos. Que há vários tipos de azeitona e que todas são deliciosas, inclusive nas pizzas.

 

Foi então que Adélia se deu conta de que não tinha nenhum motivo para ser infeliz. Seu problema é que ela desconhecia que o verde era tão bonito e que a azeitona era tão gostosa. Foi apenas uma viagem para descobrir tudo isso, e sentir-se muito agradecida à Gaspar.

 

Então ambos tornaram-se amigos para sempre e nunca, mas nunca mais Adélia se sentiu infeliz; pelo contrário, quando alguém lhe dizia que ela era verde ou uma azeitona, ela sorria, feliz da vida e saía nadando pela lagoa, aproveitando o sol e a natureza que igualmente lhe sorria.

 

publicado por blogdobesnos às 20:24

Acerco-me de ti e então meu ódio por não poder estar contigo, por não ter a chance de envelhecer contigo, de amparar-me e amparar-te, de desfrutar o imenso gozo em que me transformastes quando me entreguei, me põe assim, com um travo de angústia na boca, e me faz dizer o que meu coração condena.

 

Então te digo que não te quero mais, que não te desejo, e isso fica claro e inequivocamente dito, para que não tenhas mais nenhuma dúvida de que não te quero ver mais, que me fazes mal, e meu palato fica repleto de tais palavras de liquidação, de desafeto e meus dentes trincam a mensagem como se estivessem mordendo um pedaço macio de carne e minha língua explode em bílis quando te digo, quando te afirmo, quando vocifero isso, para que as minhas palavras saltem com mil ódios sobre o teu corpo e sobre os teus olhos.

 

Não quero que tenhas nenhuma dúvida a respeito do que eu disse, porque eu mesmo, eu que assim digo, que procedo desse modo, tenho de confranger meu coração, constranger meu espírito e tenho que tentar, pela milésima vez, abortar de mim o imenso amor que nutro por ti, um amor desmesurado, absurdamente grande, e meu coração fica assim como se fora um pedaço de nada abandonado no vazio de minha alma.

 

E mais eu digo, e mais eu falo para que entendas de uma vez por todas que não te quero, quando a minha vontade é te levar comigo para qualquer lugar, para uma vila distante, onde não conheça ninguém, para uma cidade em que não nos reconheçam, em que não saibam sequer se somos mudos ou não. Na minha mente explodem mil sóis, quatrocentas luas e uma miríade de luzes noturnas.

 

Desesperadamente abandono minha vontade, porque sei, constato a impossibilidade de me amares. Quero te levar para comermos um sorvete, e a sorveteria não há. Quero passear contigo nas praças, mas já não existem caminhos que nos levem. Definitivamente te perdi e meu último ato de improvisado desespero e de infinita tristeza é gritar ao mundo que não posso te possuir, que não me tens amor, que fostes um vento de verão, uma melancolia de outono, um rio cuja vazante secou.

 

Explodem em mim frustrações e descontinuidades, e os sentidos e os sentimentos me colhem como um trem, como uma explosão de ira, que esconde o temor enorme de viver sem tua boca, sem teus carinhos, sem teus afagos, sem a tepidez das tuas curvas, sem a tua palavra imensamente amiga e consoladora

.

E agora que te disse tudo isso, e agora que não há mais lágrimas em meus olhos, que sou apenas uma folha morta, um pedaço ínfimo do que era, que estou aqui, alquebrado e meus sentimentos apenas me sufocam, me diminuem, me deixa ficar aqui, solitário, com meu orgulho ferido, com minha alma em frangalhos, como se eu fosse o que efetivamente sou. Um nada, um discurso feito de papelão, uma angústia que se nutre de si própria, do esgar do lobo que se inclina sobre meu corpo e, num minuto, o dilacera.

publicado por blogdobesnos às 19:46

Uma vez o era-uma-vez se cansou de ser sempre o início de histórias infantis. Ah, sim…sempre começava histórias com duendes, com fadas, com bruxas e com guerreiros…não se lembrava mais de quantas histórias, lendas, contos, conversas sempre começavam sempre do mesmo jeito…

 

Era uma vez decidiu que deveria tirar férias, sair por aí, entrar e sair das histórias como se fosse um amiguinho disfarçado de vento, visitar seus grandes amigos: os livros, as histórias em quadrinhos, as revistas para crianças e, talvez, aventurar-se por outras coisas mais sérias, dessas que os adultos lêem, e que chamam, com orgulho, de literatura.

 

Mas no dia em que foi visitar a literatura, ela havia viajado, então era uma vez percebeu que quem escrevia literatura achava que não tinha nada a ver com era uma vez…

 

Enfim, era uma vez resolveu se libertar, mas, ao mesmo tempo, o que seria das crianças sem “era uma vez”? Como começariam suas histórias tão bonitas, tão cheias de colorido e de luz? Foi aí que era uma vez tomou uma decisão: chamaria outras expressões suas amigas para substituí-la! Tão fácil, tão simples!

 

Primeiro veio o tal do “então”, mas não cabia…então rimava com pimentão, com canção e com o tio Elesbão, mas era muito muito “ão”. Que confusão!

 

Depois veio o  “em primeiro lugar”…ora! Imagine uma história com “em primeiro lugar”, “em segundo lugar”, “em terceiro lugar”…parecia mais um concurso de miss, e não um início de história…

 

E veio o tal do “inicialmente”. Imagine um conto iniciando assim: “inicialmente vivia um sapo numa lagoa…” É, parecia que o nosso amigo era uma vez não teria folga nunca!

 

Cansado, mas preocupado, de repente alguém o chamou: “-Compadre! Ô compadre!” Era uma vez aguçou o ouvido: “Quem seria?”, pensou.

 

“Sou eu compadre! Vim substituí-lo!”

 

 

Finalmente! Finalmente, e era uma vez pulava de felicidade! Tão simples, mas agora poderia tirar férias! Bastou que chegasse o grande amigo….qual? qual? Ele mesmo! o Uma vez!!!!!!!!

 

 

Uma vez um pirata….

Uma vez um duende….

Uma vez uma palavra …. e assim por diante!!!!!!!!!!!!

Bravo crianças!

 

 

Agora você pode começar sua própria história! Então, vamos lá, comece agora mesmo. Olhe para quem está com você e inicie: UMA VEZ…

publicado por blogdobesnos às 19:44

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