Escritos para você

31
Mar 12

Não posso me afastar de mim; de ti eu posso. Fingir, negacear, aborrecer, amar, esqueceer, tudo isso e muito mais em relação a ti eu posso. Ao me ver no espelho, observo algo diferente do que vi ontem; nada mudou, há décadas, em como me comporto; quanto minto para terceiros, isso de certo modo me diverte e muito. Secretamente rio das suas ingenuidades, mas não possuo mais a arte de enganar a mim mesmo. Assim, tornei-me prisioneiro das expetativas que cultivei, das ilusões e dos vazios que permiti, indolente, que me acompanhassem. Dia-a-dia, gota a gota, vou nutrindo uma certa indolência com a vida, com o que virá por aí; há uma dose de autosuficiencia em tudo isso, um certo travo de melancolia.

 

Na medida em que te enlaço em minhas possibilidades, mais te seduzo e te ataranto; na posição de presa não me és mais tão atraente. O gozo do corpo, tão pleno de delícias, também tem seus melhores momentos e suas antecipações. Se o amor não for irrigado, a planta fenecerá e passará a ser, na melhor das hipóteses uma doce lembrança e na pior uma sombra solitária a me enervar, a me mostrar sempre como podia ser melhor. Se é verdade que tanto me queres, me observa melhor, para entenderes o que escondo de mim mesmo, com o que tento ocultar, com a pálida tristeza que, de tanto em tanto me torna assim tão ensimesmado. Somente assim, a partir do que efetivamente conheces, tu te tornarias verdadeira igualmente em meus afetos e em meus desejos.

 

Uma leitura real, não um trecho de virtualidades, é o que busco em ti. Essa profunda lealdade, que somente se compartilha com nossos medos, é que me faria ficar tão próximo a ti, que me tornaria realmente uma pessoa não em vias da paixão, mas do amor. Amar por vezes é estimulante, mas por certo extenua, cria obrigações, faz de um paraíso algo bastante inferior. De qualquer modo, penso que é tudo uma entrega, um pouco de um travo de vinho, talvez mesmo um pouco de fingimento.

 

Somente assim, quando a minha sombra se confundir com a sua, e eu não mais puder distinguir em mim algo distinto do que tu és, nos possuiremos. Até lá nosso amor cabe todinho em algum programa fugidio, em um final de semana, em uma tarde plena de verão, na qual saboreamos tão-só o que ali pudermos, e pouco mais do que isso será lembrança, memória, boa-vontade. Esquece meu corpo, sorve meus olhos. Eles nos dirão o que, efetivamente, poderemos ser.   

publicado por blogdobesnos às 20:52

Os camelos varavam o deserto, enquanto eu esperava por ti. Era mais ou menos assim, no deserto, com muita sede dos teus néctares que eu me (des) encontrava. Apenas me restou tua maior ausência.  Um oásis, eu necessito de um mas – por favor – sem odaliscas. Minhas energias se esvaíram e tudo parece ter perdido o sentido. Sei que não voltarás, te foste e isso é um fato que não posso discutir ou alterar, e, se algo ficou foi o desejo de compartilhar-me contigo, redescobrir talvez algum clarão de lua, mesmo um poema subitamente surgido do teu olhar. 

 

Se as memórias são uma idealização do que vivemos, mesmo o que vivemos se perde entre nossos desejos. Ilusões, as memórias são ilusões que manipulamos de acordo com nossas vontades. O presente é tua partida, o presente é a tua presença enevoada em alguma paragem, em alguma estrada, em algum caminho incerto.

 

Não havia certeza, mas meu desejo, sempre ele, traiu mais uma vez meu entendimento. Estou embotado pelas minhas recordações, pelos meus sentidos que mais uma vez se entregaram aos sentimentos. Sou, eu mesmo, uma ilusão. Um fractal. Uma semana que se esgota rapidamente, um evento. Sou um evento, com horário marcado, com sorrisos calculados, com reticências expulsas. Talvez por isso me engane tanto, embora também haja uma parte de mim que às custas da sedução, aos outros encanta. Novamente aqui, aguardando, espreitando qualquer um, qualquer uma que me diga algo gratificante, que me tome nos braços, que reinicie o signo da envolvente paixão.

 

A tua ausência não permite que eu exerça meu autocentramento. Não estás aqui, partilhar o que com quem? Ser visto por quem? Ser amado por quem? Se não posso dar-me a mim mesmo, a quem devo me submeter para triunfar sobre minhas idiossincrasias? Um oásis…, por favor, você viu algum? Necessito de ti para que digas quem eu sou, o que sou, pois não posso conviver com o meu passado, vazio de um tudo como um copo que insiste em transbordar de fel. Não viras, contudo, és apenas memória, e não quero chorar por ti, pois seria chorar pela minha própria solidão.

publicado por blogdobesnos às 16:02

Poema da Amante

Adalgisa Néri

 

Eu te amo

Antes e depois de todos os acontecimentos

Na profunda imensidade do vazio

e a cada lágrima dos meus pensamentos.

Eu te amo

Em todos os ventos que cantam,

em todas as sombras que choram,

na extensão infinita do tempo

até a região onde os silêncios moram.

Eu te amo

em todas as transformações da vida,

em todos os caminhos do medo

na angústia da vontade perdida

e na dor que se veste em segredo.

Eu te amo

em tudo que estás presente,

no olhar dos astros que te alcançam

em tudo que ainda estás ausente.

Eu te amo

desde a criação das águas,

desde a idéia do fogo

e antes do primeiro riso e da primeira mágoa.

Eu te amo perdidamente

desde a grande nebulosa

até depois que o universo cair sobre mim

suavemente.

publicado por blogdobesnos às 15:57

Talvez não fosse o momento de fechar a  janela, mas nem pensei no assunto.

 

Depois me dei conta que deveria ter pensado melhor, mas já havia acontecido.

 

Sentei no sofá e só uma hora depois me dei conta de que o amor tinha ficado lá, do lado de fora…

publicado por blogdobesnos às 15:48

Nós devemos eliminá-los, subjugá-los, os tornarmos nossos escravos, até que sejam todos extintos e que, com o passar dos anos, mesmo as suas lembranças se percam em névoas, em incertas impressões postas em algum lugar perdido nos escaninhos do tempo. E todos sabemos já por que devemos exterminá-los, submetê-los; simplesmente não podemos permitir, em nome do que somos e do que construímos, que esses outros nos tragam inseguranças, nos ameacem de modo tão oblíquo e insidioso. Se não aceitam quem somos, como somos e o modo como vivemos; se criticam a nossa cultura, nossos deuses e memórias, se ridicularizam nossa maneira de agir e de pensar, que não nos atrapalhem, que não difamem as nossas famílias, que não tentem levar à bancarrota os nossos negócios, seja diminuindo nossos lucros, seja incrementando nossos custos e prejuízos, de todo modo nos impedindo a fortuna.

 

Nascemos para o progresso de nossos planos e nossos domínios marítimos e territoriais cada vez mais se expendem, levando nossas luzes aos ignorantes, aos mercenários, pelo que assumimos nossa missão redentora, civilizatória, no sentido de colonizar os bárbaros, os néscios. Nossas eventuais limitações não devem nos paralizar, nos engessar dentro do que já somos. Devemos explorar ao máximo a grandeza histórica de nosso povo, a reconhecida destreza e eficácia de nossos exércitos. Não restemos acanhados ou moralmente constrangidos na defesa de nossos interesses, pois são os mesmos necessários em sua gênese e éticos em seus fundamentos. A compreensão, a convivência co outros não deve nos tornar fracos e impassíveis, menos ainda impotentes como os homens que se perdem em elocubrações filosóficas e morais aos quais falta a coragem, a bravura, o destemor de empreender o que deles se espera. Combatamos o bom combate, que é o da nossa ascenção; nos comportemos como romanos: si vis pacem para bellum é o lema herdado que nos conduzirá à frente. Aos inimigos do Estado, aos derrotados e aos que se interpoem entre nós e nosso destino redentor, apresentemos nossa repulsa e nossas masmorras.

 

Tomemos o que é nosso e nos pertence de direito e anexemos ainda o que julguemos nobre e passível de riqueza no interesse supremo do nosso povo.  Consagremos nossa religião, nossos mandamentos, nossas cartas como a única e inviolável defesa da nossa sociedade e de nossos princípios éticos. Devemos espalhar ao mundo as benesses dos nossos Pais, da sua sempre nobre mensagem de paz, de solidariedade e mesmo de piedade eterna àqueles que vociferam e destilam seu fel contra nós. Sejamos progressistas ao proporcionarmos aos demais povos as nossas inteligências, a nossa religião, para que eles não mais chafurdem nos seus mitos de todo abomináveis. O mundo, este lugar inigualável de fortunas e de bem estar existe para que nele plantemos as nossas raízes sociais, culturais, religiosas e economicas fecundas e de todo resplandescentes. Levemos a nossa mensagem às mais longínquas paragens, para que sejamos todos abençoados em nosso mais belo poema, o da civilização plantada em meio a hostilidade que nos cerca.

 

Aos opositores cruéis de nossas glórias, aos que nos detratam e que querem impedir nossas vitórias, se nada mais restar, que provem do fio do nosso aço e do nosso ódio.

Ataquemos, pois, e de pronto!

publicado por blogdobesnos às 15:39

Comprei um carro novo. Comprei um apartamento novo. Comprei um suéter novo, e também uma calça e mais um novo terno. Comprei uma nova idéia de cultura e, por fim, banhei-me em meus dinheiros e em minhas ilusões.

 

Depois de tanto ter comprado, adquirido, alienado, alugado, recomprado acreditei, do fundo da minha alma, que havia, de uma vez por todas, e de modo irrevogável, irretratável e indiscutível, comprado a minha felicidade.

 

Como vês, permaneço terrivelmente velho.

publicado por blogdobesnos às 15:38

Quis ativar em mim o gosto pelo meu passado, por tudo que me havia sucedido até chegar aqui, nesse momento, e poder te dizer o que se passou comigo, mas não de um jeito fugaz, nunca um “oi” desses descosturados pelo tempo, desses que dizemos e na verdade soam como um “estou indo embora”; não, que dessas saudações já ando farto, não as suporto mais.  Contrariamente, queria te dizer o que fui para que entendesses o que sou, e talvez pudesses entender melhor os desvãos dos meus pensamentos, mais ainda um pouco das minmhas inarredáveis promessas, bem mais sobre o que estendo em direção ao teu amor.

 

Queria tanto te dizer o que fui e, no entanto, agora que estou aqui, olhando teus olhos, pouco mais do que calar é o que faço. Retraio-me frente a ti como um órfão, como uma estrela sem poesia, como um mar parado na imensidão da calmaria. Perco-me tanto de ti quanto me perco em ti, me perco de ti tanto quanto me perco de mim. Estou aqui, mas nada posso fazer mais do que simplesmente balbuciar. Sinto uma dor imensa ao pensar nos meus próprios esquecimentos, e só não sou leve porque teu olhar me centra à terra, me traz de volta de meus pensamentos para tua companhia.

 

Um pouco só, abraçando a solidão é o modo como me vejo ao aproximar-me de ti, porque tu és o meu todo, e nada que possas dizer poderá te remover de dentro do meu coração. Mesmo as tuas ausências e o que possam causar-me de desconforto não são capazes de te arrancar de mim, e talvez por isso tenha tanto de te dizer o que em minha alma ocorreu quando, bem antes de te conhecer, já te buscava. Tenho necessidade de dizer-te o que os anos de angústia me roubaram, o que os anos de tristeza me marcaram para que possas por em mim o bálsamo dos teus olhos. Quero te contar de mim, pois me necessito ver em ti, quero criar um avatar de mim para mergulhar em teus olhos, quero libertar-me de vez dos pesadelos que me tornaram o que sou, para renscer em teu olhar.

 

O tempo, contudo, conspira contra mim, e sei que, pouco mais, pouco menos, irás partir não apenas daqui, mas de mim, e a tua lembrança não será necessariamente forte para me fazer escrever, de modo mais atento, o sentimento e o sentido com os quais moldasses meus desejos. Preciso pois, falar-te agora, e mesmo que não me possas escutar, mesmo que te ausentes, continuarei dizendo para mim mesmo o que tua falta me traz. Enfim, a qualquer momento, talvez por um motivo ínfimo, restarei cansado e cairei novamente no vazio em que me tornei em consequencia da intensa dor que me traz a falta dos olhos teus.

publicado por blogdobesnos às 15:36

Quis ativar em mim o gosto pelo meu passado, por tudo que me havia sucedido até chegar aqui, nesse momento, e poder te dizer o que se passou comigo, mas não de um jeito fugaz, nunca um “oi” desses descosturados pelo tempo, desses que dizemos e na verdade soam como um “estou indo embora”; não, que dessas saudações já ando farto, não as suporto mais.  Contrariamente, queria te dizer o que fui para que entendesses o que sou, e talvez pudesses entender melhor os desvãos dos meus pensamentos, mais ainda um pouco das minmhas inarredáveis promessas, bem mais sobre o que estendo em direção ao teu amor. Queria tanto te dizer o que fui e, no entanto, agora que estou aqui, olhando teus olhos, pouco mais do que calar é o que faço. Retraio-me frente a ti como um órfão, como uma estrela sem poesia, como um mar parado na imensidão da calmaria. Perco-me tanto de ti quanto me perco em ti, me perco de ti tanto quanto me perco de mim. Estou aqui, mas nada posso fazer mais do que simplesmente balbuciar. Sinto uma dor imensa ao pensar nos meus próprios esquecimentos, e só não sou leve porque teu olhar me centra à terra, me traz de volta de meus pensamentos para tua companhia.

 

Um pouco só, abraçando a solidão é o modo como me vejo ao aproximar-me de ti, porque tu és o meu todo, e nada que possas dizer poderá te remover de dentro do meu coração. Mesmo as tuas ausências e o que possam causar-me de desconforto não são capazes de te arrancar de mim, e talvez por isso tenha tanto de te dizer o que em minha alma ocorreu quando, bem antes de te conhecer, já te buscava. Tenho necessidade de dizer-te o que os anos de angústia me roubaram, o que os anos de tristeza me marcaram para que possas por em mim o bálsamo dos teus olhos. Quero te contar de mim, pois me necessito ver em ti, quero criar um avatar de mim para mergulhar em teus olhos, quero libertar-me de vez dos pesadelos que me tornaram o que sou, para renscer em teu olhar.

 

O tempo, contudo, conspira contra mim, e sei que, pouco mais, pouco menos, irás partir não apenas daqui, mas de mim, e a tua lembrança não será necessariamente forte para me fazer escrever, de modo mais atento, o sentimento e o sentido com os quais moldasses meus desejos. Preciso pois, falar-te agora, e mesmo que não me possas escutar, mesmo que te ausentes, continuarei dizendo para mim mesmo o que tua falta me traz. Enfim, a qualquer momento, talvez por um motivo ínfimo, restarei cansado e cairei novamente no vazio em que me tornei em consequencia da intensa dor que me traz a falta dos olhos teus.

publicado por blogdobesnos às 15:29

Partilhava o homem de uma amizade sincera com Pedro. Um dia, ambos não mais se viram, e Pedro foi morar muito longe, e acabaram, como ocorre de quando em quando, por se perderem. Anos se passaram e eles passaram a ser, um para outro, uma cálida lembrança, um fio de sonho, passagens e memórias em comum.

 

Em uma noite de inverno, Pedro estava em sua casa quando, de repente iniciou uma ventania muito estranha, incomum. Ao olhar pela janela, notou que as folhas das árvores pareciam imóveis. Tudo, de repente, ficara suspenso; mesmo os sons comuns da rua emudeceram. Então, de onde lhe vinha aquele tremor, aquela sensação repentina de frio, senão…de si mesmo?! Onde estava Benjamim, e porque a lembrança do amigo lhe era tão viva, tão real, tão próxima que praticamente podia escutá-lo, sentir-lhe a presença? Onde, Benjamim, onde você estava, agora, perguntava-se angustiado Pedro, enquanto as sombras deslizavam, imperceptíveis entre Pedro e as janelas?

 

……

 

Em algum lugar ermo, perdido no tempo, Benjamim observava Pedro. Via-lhe o desespero, as lágrimas que acudiam o amigo, mas, sabia, que, independentemente da vida que ambos levaram, dos destinos e das estradas percorridas, estavam mais próximos que nunca. Em breve poderiam, calmamente conversar, enquanto, lá fora, uma chuva miúda anunciava mais uma noite fria e sem luar.

publicado por blogdobesnos às 15:21

Em algum lugar, bem longe de onde estou, começou minha peregrinação. Cheguei aqui, com todos meus sentidos, com meus percalços, com um pouco menos de espírito mas ainda sendo solidário, cheguei aqui, talvez para simplesmente sentar e te contar uma grande história, mas não essas de vultos e heróis pátrios, nem de descobridores, nem de talentosas pessoas. A história que venho te contar é a minha mesmo, essa que fui entretecendo nos dias e nas noites em que vaguei por aí, em que fui eu um parco herói de baixo coturno. Mas, se não quiseres escutá-la, não vou sequer me amolar, pois a compreensão habita em mim. Assim como o conformismo. Não, não te preocupes se te disse que percorri grande distância para que fosses meu ouvinte. Esquece, afinal, como se diz por aí, eu sou mentiroso. Essa é a minha fama, e portanto é nela que baseio meus comportamentos. Depois de tantos anos, é bom que brindemos à alcatéia com nossa mais solene indiferença. Me querem mentiroso, pronto! assim eu serei, e não se discute mais isso.

 

Sim, é por esse motivo talvez, por dares mais atenção aos boatos que aos fatos que não me queres escutar. És uma pessoa dessas sérias, comprometidas, probas, que tem muitos compromissos e não deves mais perder teu tempo me dando tua atenção. Sim, sim, as pessoas sérias sempre dão alguma coisa aos outros, para que esses fiquem lhe devendo favores. Eu, cá com meus botões, percebo: me destes já uma parte do teu tempo, mas não podes mais fazê-lo, então só posso agradecer a tua misericordiosa contenção ao me ouvir, pelo menos até aqui e a história – ah, sim, a história! – não, não te preocupes, afinal ela é longa, o tempo se esvai como líquido entre as mãos, e é melhor assim que tudo fique para outro dia, quando também não mais irei contá-la.

 

Não te dês ao trabalho sequer da curiosidade, pois em mim habita o improviso e decerto, do muito que te diria, a maior parte seria pura invencionice, assim, hás de sair agora, no que te dou razão, embora não te dê meus argumentos, minhas metáforas, sequer minhas metonímias, que tanto aprecio. Ficamos assim, então, sem mágoa, sem remorsos, sem desconfianças, tu partes e levas contigo o que trouxesses, tuas tarefas, teus agendamentos, tua pouca paciência, enquanto eu, pássaro livre e altaneiro levo em mim apenas o trinado da liberdade dos que nada tem a perder. Adeus, então.

publicado por blogdobesnos às 15:19

Há um homem que busca ver o que se esconde sob a chuva que molha as calçadas, as ruas, que se precipita sobre a cidade. Ele está ali, olhando através da vidraça as luzes âmbar das noites, mas seu pensamento está absolutamente longe, distante de tudo aquilo. Sua vontade atravessa a chuva, a noite, e vai perseguir seu desejo. Não, ela não está, não, ela já se foi, e tudo é passado. Há uma intensa sensação de vazio, um ato de resignação que o acompanha nos últimos meses. O homem veste um impermeável, sai para a rua, acende um cigarro e caminha em meio à chuva e ao frio. De certo modo, a água que cai o transporta à infãncia, à casa de madeira onde nasceu, e a lembrança do sorriso de seu pai de repente lhe aquece o coração.

 

Ele anda, anda, e vê luzes em perdidas janelas de apartamentos e ter cruzado por pessoas apressadas. Caminhou serenamente entre a chuva, tentando justamente não pensar, se concentrando apenas na força de suas pernas, em sua respiração e na própria noite. Finamente, entrou em uma cafeteria, improvável, pequena. Havia ali apenas duas pessoas além dele. Pensou que o café lhe faria bem, e foi o que aconteceu. Saiu para a noite, acendeu outro cigarro e continuou andando. O pensamento recorrente apanhou-o em cheio. Lia, as crianças, Fabiana, o amor, a casa, tudo acabado, e cada lembrança era como um alfinete que o feria. Continuou andando.

 

Quando o dia amanheceu, ainda o encontrou ali, como que carregando um peso excessivo que teimava em assoberbá-lo. O sol iluminou-o enquanto ele, o caminhante, buscava timidamente o caminho de volta.

publicado por blogdobesnos às 15:15

Pausa para um poema triste. Ou dois.

Ou sublimando as pulsões de morte.

 

Ana de G.

 

Vivo como quem

já não mais vive,

ou ainda não.

Escolho palavras

como escolho ruas

só para variar

só para tentar viver em mim

uma parte nova

desconhecida

inabitada

in-esquecida.

Para tentar tornar leve e ágil

o cérebro pesado e inerte

que, silente

lamenta minha dor.

Procuro no porvir

um pouco mais de alegria.

Mas esse tempo não há

ainda

somente existirá

no inospitado

pensamento.

Chegado o lá

o que é agora

desmorona

e faz reviver

a dor de outrora.

Tempo

que consome as esperanças

e o frescor,

que cura dores

e mantém vivas as cicatrizes

amargas,

que separa os amores

une os corações

apodrece os corpos.

Vida incompreendida

indecifrável

ininteligível

que só se faz

sentido

na voz de meus filhos

no olhar de meus filhos

na doçura de meus filhos

na perplexidade

de meus filhos

nas descobertas

que se me apresentam

por meus filhos.

Meus filhos

que me mantêm acordada

tentando crer

ainda.

 

*********

 

Se o teu olhar ainda me diz

que de mim precisas

que tua fraqueza

da minha força vive

já não me diz

da minha beleza

da minha singular existência.

Já não me comes

com olhos famintos

mas me devoras

com o teu cruel

desinteresse.

Palavras ocas

Beijos vazios

Abraços frouxos

Minhas palavras

já não te dizem

somente te informam

o que escolhes saber.

Do meu saber

queres pouco

ou quase nada

ou nada

porque de nada vale

para a tua magnífica existência

além de mim.

Se já fui musa do poeta

inefável

para quem me desejou um dia

hoje

disforme

recolho minha insignificância

num pedaço

de papel.

E morro um pouco

a cada dia

pela falta

do que me faz

falta.

publicado por blogdobesnos às 15:10

Sapere aude, junho de 2009

 

Ali, naquela planície, havia uma cidade, e ela era como algumas cidades que temos em nossa mente. Todas as cidades; ali havia um rio que serpenteava e a abastecia durante o ano inteiro, e havia também ruas, avenidas, vielas, pequenas pontes, travessias, monumentos, praças e muitas pessoas que íam construíndo seu dia-a-dia, amando, envelhecendo, nascendo e se aposentando. E como em toda a cidade, havia os prédios, todos eles, os históricos, os modernosos, mesmo os shoppings (não há uma cidade sem eles…) e eram antigos, de todas as cores possíveis e ainda aqueles que foram perdendo as cores, as escolas, as repartições públicas, os hospitais, mesmo os hospícios, enfim, havia tudo ali que existe dentro de uma cidade, os lugares mal-afamados, os lupanares, os distritos policiais, as sargetas, a marginália que aumentava a cada final de dia e que ali parecia multiplicar-se enquanto o rio era ferido, maltratado, mas seguia o seu curso sempre igual entre as montanhas e os vales.

 

E ali, naquela cidade, havia uma avenida e dentro dela uma rua transversal e dentro dela os seus prédios e dentro de um deles um apartamento no qual vivia um homem só e dentro do homem havia um coração e dentro dele nada, absolutamente nada.

 

Talvez, pensando naquele homem sem cheiro nem cor, que se confundia com a própria paisagem, com as pedras e com as cores dos tijolos que construíam as paredes, e sem nada no coração que alguém, de certo modo poético, tenha cunhado a expressão cidade-fantasma.  

publicado por blogdobesnos às 15:08

Ouso dizer que todos nós temos nossas pequenas ou grandes obscenidades e ignorâncias, alimentadas dentro de nossas inconstâncias. O que se segue não é um manual de boas etiquetas; contrariamente, é uma pequena fotografia dos nossos infindáveis defeitos, de nossas imoralidades consentidas ou não. Um manual de dispositivos que muitas vezes usamos cotidianamente, sem nos darmos conta, ou, o que é pior, que fazemos de modo racionalizado. Talvez a gente se reconheça, mais ou menos, mas, sem qualquer pretensão, talvez nos tenhamos dedicado a alguns desses itens de modo estratégico.

De qualquer modo, são atos vis.

Mais: me apetece imensamente dizer que esse é o tipo de listagem infinita, sempre buscando novos adendos. Se houver novos itens, por favor, colaborem.

Um abraço a todos que me ajudaram, durante todos esses anos a elaborar esse pequeno ser abjeto.

Sejam bem vindos.

hILTON 

1

Brancos são superiores aos negros, homens às mulheres e todos são superiores aos pobres.

2

Haverá um esforço contínuo e persistente no sentido de submeter a inteligência à mediocridade e à ignorância.

3

Sempre que possível, seja desagradável.

4

Só faça ou deixe de fazer algo se houver alguma vantagem a ser auferida, especialmente financeira.

5

Não confie em ninguém. Todos são inimigos.

6

O mundo foi criado para você e não o contrário.

7

A aparência é tudo.

8

Entre o burocrático e o criativo, estimule o primeira e critique permanentemente o último.

9

Sexo é algo que você usa unicamente para o seu prazer.

10

Avalie os homens pelas suas posses, as mulheres pelos seus corpos e todos de acordo com os seus interesses.

11

Entre a administração e o humano, sempre prefira a primeira opção.

12

Não pense, apenas execute.

13

Todo homem bem sucedido é homossexual, pedófilo, ladrão, estelionatário ou recebeu herança da família.

14

Ser mau humorado é a regra, pois o bem humorado não leva nada a sério.

15

Sempre que puder, seja maledicente.

16

Mulheres inteligentes são chatas e, no mais das vezes, perigosas e ameaçadoras.

17

Quando você quiser um(a) ditador(a), conceda uma fatia de poder, mesmo que ínfima, a um prepotente.

18

Quem não trabalha é porque gosta de ser vagabundo.

19

Sempre que puder, concentre o máximo de riqueza possível, sem qualquer espécie de retorno social.

20

Destrate e ridicularize as preferências dos outros, especialmente as religiosas, étnicas e políticas.

21

Não perca uma oportunidade de se mostrar superior a quem quer que seja.

22

Constranja e critique os outros da maneira mais insidiosa ou ostensiva que puder.

23

Sempre generalize, de preferência utilizando o senso comum.

24

Ao receber uma mensagem em seu e-mail repasse-a imediatamente para o máximo número de pessoas possível, mesmo que saiba que tal mensagem é mentirosa, antiética, racista ou caluniosa.

25

Trate a negligência como uma flor a ser cultivada.

26

Classifique as pessoas e as catalogue, como se todas coubessem no seu escaninho.

27

Em hipótese alguma socialize o seu conhecimento.

28

Em assuntos complexos, seja reducionista.

29

Importe-se absolutamente com a opinião de todos sobre tudo, especialmente se entre esse tudo você estiver incluído(a).

30

Em uma reunião, faça o possível para que o foco da mesma seja perdido e, de preferência, polemize assuntos fora da pauta.

31

Fale, pense e vista-se de modo obsceno, especialmente tenha um comportamento obsceno.

32

Sempre que possível, berre; na pior das hipóteses, guinche ou grite.

33

Manipule as situações, não se importando se os outros perceberem ou não, de modo a que façam o que você quer.

34

Use o poder de modo despótico e imperial.

35

Seja subterrâneo e melífluo em seus argumentos, dando preferência a linhas discursivas baseadas no senso-comum.

36

Em uma polêmica ou discussão, não contra-argumente o ponto-de-vista do outro, mas ataque-o pessoalmente e tente desestabilizá-lo.

37

Não revele as suas opiniões nem seja autêntico em seus propósitos; sempre deixe uma carta na manga de reserva.

38

Comprometa-se apenas considerando seus próprios interesses e nada mais além disso.

39

Em uma situação de dissensão, aguarde convenientemente que uma opinião ou uma corrente seja majoritária e só então adira a mesma.

40

Lembre-se: você só tem direitos enquanto os outros só tem deveres e obrigações, especialmente em relação a você.

41

Falte a aula e depois reclame que o professor não o ensinou.

42

Vitimize-se, partindo do princípio de que sempre a culpa é dos outros.

43

Somente seja ríspido com pessoas que se encontram em uma situação econômica, cultural ou social abaixo da sua.

44

Jamais responda diretamente ao que lhe for perguntado. Seja evasivo.

45

Quando você sabe de antemão que alguém tornará pública uma opinião com a qual você não concorde, interrompa, grite, seja ironico, procurando desestabilizar seu oponente. Não o deixe externar o que pensa. Se não for possível, pelo menos plante dúvidas e desarmonias.

46

Cultive a violência simbólica ou física. Tente impor-se ante terceiros, mesmo utilizando a força bruta.

47

Os seus desejos sempre são mais importantes; a sua vontade é sempre a mais justa e as suas decisões as mais sábias.

48

Ser flexível demonstra fraqueza e você, como sabemos, é forte, rígido e inabalável em suas convicções.

49

Entre a sensação e o sentido, opte pela primeira; entre o escutar e o falar, prefiro o último e entre a conversa e a imposição, imponha.

50

Seja sempre macho, porque homem não demonstra seus sentimentos e nem suas reais intenções.

51

Seduza como um meio estratégico para obter alguma benesse ou favor.

52

Quando pretensamente beneficiar alguém, assegure-se de que será, de algum modo, recompensado.

53

Não atualize-se profissionalmente e cristalize-se no passado.

54

Só leia quando houver um ganho calculado.

55

Aproveite a lassidão e o comodismo do outro para justificar sua própria lassidão e comodismo.

56

Havendo oportunidade, jogue um grupo inteiro contra um oponente mais fraco.

57

Nunca traga, para alguma atividade, o material necessário, pois assim você poderá perturbar o outro e todo um trabalho, pedindo-lhe algo que você deveria ter trazido e podendo, então, acusar esse outro de insensível e de egoísta.

58

Se necessitar desculpar-se ou não puder evitar algum tipo de perda em uma situação conflituosa, chore. É uma estratégia bastante utlizada e com ótimos efeitos práticos.

59

Use o sentimento de culpa ou a dependência de um terceiro para atingir seus objetivos.

60

Se o outro errou chame-lhe a atenção; se acertou, não o elogie; diga que ele nada mais fez que a sua  obrigação.

61

Force os outros a escutá-lo, de preferência criando uma história interminável.

62

Minimize o mérito alheio brindando-o com uma irritante indiferença.

63

Cultive a dependência dos outros em relação a você.

64

É imprescindível que suas palavras afiadas como punhais tenham a suavidade do algodão.

65

Quando pressionar alguém, mantenha-se calmo, quase carinhoso e meigo e só então enfie a faca o mais profundo que puder.

66

Em assuntos polêmicos, mantenha-se dentro de uma neutralidade vazia. Deixe que os outros se estraçalhem, enquanto você sorri aos ventos.

67

Não ande, corra. Empurre se achar que deve, mesmo que você não saiba onde quer chegar.

68

Una-se a frustrados, mas competentes. Pessoas felizes nem sempre dão atenção a detalhes e estratégias que podem se transformar em armas.

69

Não atire para matar, mas para incapacitar o outro.

70

Acima de tudo respeite seus próprios interesses; todo o mais é supérfluo.

71

Ignore caminhos construídos graças à criatividade dos outros. Afinal, se você tivesse sido consultado, os resultados seriam muito melhores.

72

Quando alguém necessitar da sua decisão ou ajuda, postergue-a para demonstrar seu poder.

73

Delegue funções e obrigações aos outros, mas mantenha-os sob controle para que possa capitalizar em cima do trabalho alheio.

74

Quando alguém tiver argumentos suficientemente fortes, isole essa pessoa, usando a intriga, a maledicência e a desqualificação pessoal pura e simples.

75

Quando você não for capaz de solucionar algo, culpe terceiros, ou a instituição ou, em último caso, o sistema.

76

Animalize seu relacionamento com as pessoas e humanize seu relacionamento com os animais.

77

Converse sempre em voz alta, deixe o celular ligado, arraste classes e cadeiras, maximizando este tipo de comportamento.

78

Fure filas, fume em locais proibidos; se chamarem sua atenção, bestialize e inicie uma discussão.

79

Se alguém tem por hábito fumar, inicie um discurso anti-tabagismo, indicando precisamente os cânceres possíveis.

80

Se alguém tiver o hábito de fumar, anuncie aos quatro ventos os malefícios que acorrem aos fumantes passivos.

81

Inicie, sustente e polemize sobre assuntos irrelevantes ao contexto do que está sendo discutido.

82

Diga que seu trabalho é insuportável, que seus colegas são intoleráveis e, de acordo com a situação, diga exatamente o contrário.

83

Não estabeleça prioridades nem perca seu tempo planejando sua vida, prefira interferir nos projetos pessoais alheios.

84

Viva pautado pelo relógio, pelas conveniências sociais e por seus interesses profissionais.

85

Inveja. É indispensável nutrí-la constantemente.

86

Seja possessivo e ciumento em relação ao seu amor; liberal e condescendente em relação ao amor dos outros.

87

Quando o assunto não lhe interessar, se faça de desentendido; ocorrendo o contrário, seja atento o máximo que puder.

88

Use o cinismo e designe-o de crítica construtiva, a falta de respeito como se fosse um argumento válido e a ignorância como se fosse sabedoria.

89

No trato com os outros, tenha uma atitude displiscente e dispersiva.

90

Mesmo que você tenha entendido algo, faça com que seu interlocutor repita o máximo de vezes a mesma coisa, levando-o à irritação.

91

Endeuse a futilidade.

92

Em uma aula, palestra ou experiência, interrompa perguntando coisas absolutamente irrelevantes como “que horas são”, “que dia é hoje”, etc.

93

Antes mesmo de ouvir, diga que não entendeu e que você não tem a mínima disposição para fazer o que lhe for pedido.

94

Seja indulgente com seus erros e cruel com os erros alheios.

95

Se atingir uma meta demanda muito esforço, convença alguém a fazer o trabalho, mas não esqueça de colher os louros.

96

A solução dos seus problemas deve ser buscada por todos, mas as questões dos outros são de plena responsabilidade desses outros.

97

Defenda a exclusividade do seu conhecimento como se fosse a última bastilha civilizatória resistente contra os invasores

98

Transforme o seu trabalho em uma extensão da sua vida pessoal.

99

Suporte seu trabalho e odeie seus colegas.

100

Seja rancoroso. Espere anos por uma vingança pessoal. Alimente seu ódio, de preferência cotidianamente.

101

Marginalize ainda mais o marginal, discrimine mais ainda o discriminado e rotule exponencialmente o estigmatizado.

102

Seja objetivo: sentimentos são coisas de tolos.

103

Se algum desafeto estiver fragilizado, esse é o momento de atacá-lo com toda sua força.

104

Mulheres são objeto de uso e de consumo (nem sempre exclusivos).

105

Mostre-se atencioso, apaixonado e delicado até conseguir ir para a cama com a mulher desejada, depois despreze-a.

106

Tenha um dossiê da vida pessoal de seus desafetos.

107

Não seja piedoso com aqueles que não podem ameaçá-lo.

108

Aproxime-se de alguém para colher informações que você possa utilizar contra terceiros que possam importuná-lo.

109

Seja totalmente individualista na prática mas solidário no discurso.

110

Resista a mudanças que podem mudar seu poder de controle.

111

Seja democrático no discurso e autocrático na suas ações.

112

Dê pequenos presentes – baratos, de preferência – a seus aliados, reforçando seus laços de confiança sem gastar muito.

113

Use mulheres para servir de bengala à sua autoimagem.

114

A melhor tecnologia continua sendo a exploração do trabalho alheio.

115

Confunda seus desafetos tratando-os bem para agir quando eles, finalmente, baixarem a guarda.

116

Aproveite da carência de outro para se fartar.

117

Crie artificialmente a imagem de que é doente ou tem algum tipo de problema emocional: é um passe livre para você exercer, sem peias, a sua estupidez.

118

Retalie, mas, dependendo da situação, nunca o faça diretamente, use outros para isso.

119

Veja o futuro através de um retrovisor.

120

Fale com absoluta convicção e certeza a respeito de assuntos que você desconhece por completo.

121

Seja redundante: discurse no sentido de sustentar o que já foi majoritariamente decidido.

122

Faça com que outros percam tempo e energia com irrelevâncias.

123

Discuta e muito a respeito do que já está provado e comprovado.

124

Em uma discussão particularmente delicada havida em um grupo, faça o possível para reacender divergências, expondo-as de modo reducionista.

125

Jamais respeite inscrições para falar em alguma reunião: simplesmente atropele o outro.

126

Em alguma reunião, retenha o máximo possível a palavra, dando-se ares de ofendido quando outro estiver falando.

127

Não esqueça: as suas grosserias são chamadas de espontaneidade.

128

Consuma acima do que pode e depois reclame dos juros do cartão de crédito, do governo, da sua vida difícil, etc.

129

Converse sobre a sua vida íntima como se fosse um tema obrigatório ao grande grupo.

130

Lamente-se constantemente.

131

Trate seu trabalho como se fosse um bico e não se esqueça: sempre reclame de outros que trabalham menos ou pior que você e ganham muito mais.

132

Entre investir e resolver um problema, procure gastar menos e criar paliativos, junto com serviços de manutenção.

133

Viva o ontem e projete o hoje.

134

Siga o planejamento, mesmo que desconectado com a realidade.

135

Faça grandes planejamentos, especialmente se não tiver meios e tempo de executá-los.

136

Viva com um homem por conveniêncie social ou material e apregoe contra a prostituição.

137

Comporte-se de modo lascivo mas use um discurso moralizante.

138

Fique sempre além do seu horário no trabalho, mesmo que não haja nada urgente a resolver: isso fará com que os outros pensem em como você é necessário e em como você vive sobrecarregado.

139

Negligencie a sua família em relação ao seu trabalho.

140

Use sempre números menores de roupa que o seu, para se sentir atraente e sensual.

141

Banque o gentil e prestativo para, após, poder cobrar com juros o que fez por pretenso desinteresse e solidariedade.

142

Empenhe-se em ter discursos moralistas, nos quais, obviamente não acredita.

143

Para demonstrar que gostou de uma refeição, arrote.

144

Ande sempre com uma expressão estressada no trabalho.

145

Viva repetindo que não sabe o que fará na aposentadoria, porque não saber viver sem estar trabalhando.

146

No trânsito, buzine sempre e ande em alta velocidade.

147

Seja inflexível.

148

Mostre-se adulto em relação às crianças e infantilizado em relação aos adultos.

149

Case com o relógio acima de todas as coisas. 

150

Transforme uma pergunta simples em um interrogatório.

151

Recrimine alguém em público, com a voz mais alta e clara que conseguir.

152

Comprometa-se com terceiros a fazer algo e, ato contínuo, esqueça o assunto.

153

No sexo, faça teatro e seja artificial. Leve o celular ligado para a cama.

154

Esclareça o que já foi esclarecido, explique o que todos já sabem e repita o informado.

155

Em ambientes formais, seja informal; em cenários informais, vá de gravata ou de tailler.

156

Introjete nos outros o medo, a insegurança e o ressentimento.

publicado por blogdobesnos às 14:57


O corpo chama, mas o olhar, antes, convida.

publicado por blogdobesnos às 14:46

A fumaça azul do cigarro é diáfana, da mesma cor dos seus olhos. Procuro, aqui e ali registros seus, uma fotografia… talvez algo tenha ficado por aqui, dentro de alguma gaveta, em algum escaninho, perdido entre papéis. Que vontade de uma foto sua, e assim, obcessivo, vasculho o que posso, me perco entre pastas, arquivos, enquanto o tempo vai ceifando as minhas esperanças. Saudade, saudade, dilaceramento da alma, cântico de quem é só. Queria ter você, mas só há recordações, você não está.

 

Talvez eu não devesse falar, mas este desespero é a companhia de quem, como eu, se sente assim, meio sem rumo, vivendo os dias como um fantasma que transita dentro da solidão que me consome. Não quero amores, não quero sequer esperanças: me movo como um boneco de molas, e quando a noite surge, naufrago com ela. Meus navios não chegam ao porto, meus ritmos perderam a cor, meu sonho esvaiu-se. De real, de palpável e de concreto, na minha vida, só a fumaça azul do cigarro.   

publicado por blogdobesnos às 14:37

Noite, em alguma grande cidade, em uma megalópole, de preferência. Andar por uma rua desconhecida, entre muitas pessoas, vendo-lhes o rosto, as vestes. Andar errante, sem qualquer horário ou obrigação. A noite e os neóns dominam tudo, enquanto o mundo continua nas suas tentativas de compra e venda.

 

Mulheres ali pelas esquinas, esperando o óbvio, homens que buscam não se sabe o que e, se eles mesmos soubessem, poriam em primeiro lugar o esquecimento, a volúpia de serem camaleões, seres mimetizados. Caminhar é a grande rota que se vai construindo no espaço e no tempo.

 

De repente, os bares, os eternos bares para os quais as esquinas são apenas linhas geométricas que existem para que possamos referenciá-los. Entro em um deles, a fumaça viciosa me atinge. Ao canto um trio de blues simplesmente canta: “night and day, you are the one…”.

 

Sorrio. Finalmente estou em casa.  

publicado por blogdobesnos às 14:23

O brilho da lua


O melhor momento, para pai e filho, era o da noite quando, deitados e na hora de dormir, o menino pedia ao pai que lhe contasse “uma estória”. Ambos se enroscavam e o pai sentia que os olhos do menino se iluminavam, já antecipando o prazer do conto, e ai daquele se tentasse repetir alguma estória; o garoto de seis anos reclamava na hora: “Ah, pai, essa tu já contou” ou “Ah, não, essa é chata!”, decretava.

 

Então, sem alternativas, lá ia o pai criar uma estória nova, desde duendes até capa e espada, desde heróis até as mais tecnológicas, onde sempre havia um monstro (crianças amam monstros), ou uma máquina de tempo (de preferência indo para o futuro) ou qualquer outra engenhoca (foguete, nave espacial) que estimulasse a imaginação.

 

O menino acompanhava atento para entender e apreciar a estória, sem perder nenhum detalhe, criando os personagens na medida em que seu pai ia avançando na narrativa. De repente, na hora de dormir, o quarto virava cenário único em que pai e filho tornavam-se sonhos de encantamento. Então o quarto ia sendo suavemente invadido por piratas, elefantes, baleias, crianças, fadas, gnomos, sereias, reis, castelos, pó de pirlimpimpim…

 

Ambos, ali, sem se darem conta, estavam criando uma história dentro da estória, um roteiro que não constava em nenhum filme, novela ou romance mas que se construía e se constituía como um rico argumento de suas próprias vidas. Assim, nas noites de inverno, enquanto o vento zunia lá fora (vento mesmo ou lobos à procura da caça?), pai e filho se preparavam, só eles, sem que ninguém mais soubesse, para buscar, nas estrelas, o brilho da lua.

publicado por blogdobesnos às 04:28

F. sabia que talvez não fosse possível atravessar a avenida Assis Brasil; sempre, àquela hora o vaivém dos veículos era enlouquecido, além dos dois corredores de ônibus, cujo trânsito nunca cessava. Mesmo assim, movido pelo desespero, F. cruzou a avenida na diagonal. Pura roleta russa. Pura diagonal de homem gol. Pura diagonal que traduzia uma vida também assim, de atitudes incompreendidas, contidas até o extremo, atravessadas. F. realmente não se entendia.

 

Tanto modo pra se matar e foi escolher justo o mais difícil. Poderia simplesmente usar, dos métodos, o melhor: um frio disparo de arma contra o palato. Mas não,foi buscar justamente um dos mais arriscados e que podiam, além de causar muita dor, falhar. Como quase tudo em sua vida, pensou, mas pensou errado e agiu pior ainda. Coisa de amador ou de quem, no fundo não tem coragem de assumir o que quer. “Sou um fraco”, foi o último pensamento que teve antes de sofrer o inevitável golpe.

 

F. não morreu, mas partiu a coluna, ficando tetraplégico e – se algo ainda podia ser pior – totalmente dependente de quem tanto odiava, justo quem lhe fizera cair em um desespero tão grande que o impeliu a atravessar, como um ensandecido a avenida Assis Brasil. “Entrevado” era a única palavra que vinha à mente de F., prostrado em cima de uma cama para sempre, uma vez que não dispunha de recursos para amenizar suas dores. Seu desgosto e a sensação de inutilidade eram sua companhia constante. Queria, urgentemente, levantar daquela maldita cama que o retinha como uma prisão e que o afastava definitivamente de uma vida que tanto gostaria de retomar.

 

Em uma madrugada, quinze anos após o acidente, reduzido fisicamente a um nada e totalmente dependente, sobreveio-lhe a redenção esperada, através de um ataque cardíaco fulminante; nada pode salvá-lo e, gostemos ou não, a história acaba aqui, porque nem sempre a vida real segue os roteiros de novela e menos ainda os heróis estão dispostos, quando desejamos, a salvar o mundo.

publicado por blogdobesnos às 04:21

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