Escritos para você

29
Mar 12

Não há noites sem lua nem palavras sem significados

Sem sentido muitas vezes somos nós (e é bom!)

A uniformidade é chata

Esperamos o mocinho que nos salvará, como em um filme

Se ele não nos encontrar em tempo

Consolemos-nos olhando as noites e aguardando

Os luares seguintes

 

Novembro 2008-11-25

 

publicado por blogdobesnos às 23:47

O par, o casal, ambos

Cruzando a vida, discutindo nas esquinas.

Rindo às escâncaras,

Poucos amigos: o par, o casal, ambos

O prenunciar da chuva indica nuvens, depois delas,

O verde

O par, o casal, ambos aguardam os verões.

publicado por blogdobesnos às 23:46

Drex is the wrong man in the wrong place. É aquele cara que sempre chega um pouco mais tarde do que deveria. Se fosse jogador de futebol, erraria no momento decisivo, no de fazer um gol: não alcançaria a bola em um cruzamento em diagonal sob a área adversária por milionésimos de segundo. Se tivesse uma amante, a primeira pessoa a saber seria sua esposa – além de toda a cidade, claro!

 

Drex é gente boa, mas isso não basta. É moderno, e não pós-moderno. Enrola-se com o celular e o computador e quando passa as marchas do carro, erra. É reativo e não proativo (de vez em quando é muito passivo). Drex tem muitos conhecidos, mas, bobo, pensa que conhecidos são amigos. Seus conhecidos não o convidam para nada; aliás, deles, só conhece a casa de dois e isso já é uma exceção apenas para confirmar a regra.  Os amigos conhecidos o convidam apenas quando compromissos profissionais exigem e há um bando inteiro reunido.

 

Drex é aquele que dá preferência aos idosos e às crianças, inclusive nas poltronas de ônibus, no passar das portas e mesmo no acesso às palavras. Claro que, como todo moderno, ele espera que as pessoas agradeçam seus pequenos ou grandes gestos de polidez e de gentileza, o que quase nunca ocorre, o que o deixa frustrado e se sentindo um pouco mais tolo. Defende seus pontos de vista com paixão, mesmo que eles sejam contrários ao senso comum. Ele também muitas vezes se sente inadequado, pois muitas vezes diz coisas na sua boa-fé que podem magoar terceiros, esquece invariavelmente datas, não usa direito a agenda e, o pior de tudo, não aprendeu direito a priorizar assuntos.

 

Drex também tem o hábito de usar o tempo de modo não-lógico. O uso do tempo, particularmente, é ou pode ser motivo de estresse, porque a dificuldade em priorizar acaba se refletindo no uso do tempo, o que provoca estresse em relação às pessoas que mais ama, pois os assuntos nunca andam na velocidade que deveriam.

 

No entanto, Drex é responsável, é dedicado aos seus, se importar com os outros e não acha que trabalho somente é um meio de se ganhar dinheiro: ele empresta valor ao que faz e talvez por isso seja um bom profissional. É capaz de ler, escrever e abstrair-se em meio ao caos, de criar músicas e poemas, de sentar com as pessoas e de apreciar o que poucos apreciam: o orvalho, as gotas de chuva, os pequenos sorrisos de teatro kabuqui. Talvez por causa disso tudo Drex tenha algumas dificuldades muito pessoais; no entanto pretende melhorar nos campos em que não é bom. Talvez tenha possibilidades de ingressar em uma depressão em razão de seu comportamento não tão habitual. Essa inabilidade em separar, escolher, classificar prioridades o coloca em situações bem desconfortáveis. Para compensar isso, Drex tem uma alta capacidade de raciocínio e de ver possibilidades onde outros vêem crises, angústias. Tem uma grande habilidade para escrever, para ler e para ouvir.

 

No fundo, Drex é uma bela pessoa, no sentido metafórico, claro; confere leveza onde há peso, e humor onde o rigor se instala. Do ponto de vista humano, Drex é legal e sabe de seus defeitos, embora tenha dificuldade em vencê-los; algumas mulheres o acham sensual, inteligente, interessante, enquanto outras sequer registram sua presença. É um homem maduro, embora muitas vezes se pense perplexo. Sendo criativo por vezes fica instável e dá um enorme valor à humanidade, de modo genérico. É incapaz de apropriar-se do que não seja seu, de bebedeiras e normalmente é generoso e solidário. Jamais confunde amor por animais com amor por seres humanos, sempre optando por palavras ao invés de miados ou latidos.

 

Um dia pensou que talvez fosse mais estético ter um “k” ao invés de um “x” no final do nome, mas foi só entender um mínimo de hebraico para abortar a idéia. Talvez a missão de Drex seja mergulhar em humanidades, mas, óbvio, não sabe nadar direito…

publicado por blogdobesnos às 23:36

Em Paz

 

Já bem perto do ocaso, eu te bendigo, ó Vida,

Porque nunca me deste esperança mentida,

Nem trabalhos injustos, nem pena imerecida.

 

Porque vejo, ao final de tão rude jornada,

Que a minha sorte foi por mim mesmo traçada;

Que, se extraí os doces méis ou o fel das cousas,

Foi porque as adocei ou as fiz amargosas;

Quando eu plantei roseiras, eu colhi sempre rosas.

 

Decerto, aos meus ardores, vai suceder o inverno:

Mas tu não me disseste que maio fosse eterno!

 

Longas achei, confesso, minhas noites de penas;

Mas não me prometeste noites boas, apenas

E em troca tive algumas santamente serenas…

 

Fui amado, afagou-me o Sol. Para que mais?

Vida, nada me deves. Vida, estamos em paz!

 

AMADO NERVO (1870-1919)

Poeta mexicano.

publicado por blogdobesnos às 01:32

           O centauro, por menos provável que pareça, não mora nos pampas. O centauro também não é centenário, conforme poderia se pensar; na realidade é bem mais antigo. Alguns o chamam de mito, outros de O MITO, o que é mais interessante, mas o centauro continua por aí, meio arredio, meio sem aparecer nos pointsde costume. O centauro é um ser muito indeciso, entre a macheza do cavalo e entre o persistente senso de humanidade, e por isso ele é basicamente um bicho-homem (ou um homem-bicho) triste. Se há alguém com quem ele se entenda é com a iara, aquela que é metade peixe, metade gata (alguém já viu uma iara ou uma sereia feias, por acaso?). Com ela sim, o centauro consegue conversar, consegue se sentir bem. Já namoraram, mas nunca além do sentido mais metafórico, porque é impossível a ambos concretizarem seus sonhos eróticos. E isso é, muitas vezes, paralisante.

 

          Nosso centauro se chama Enio e nossa iara se chama Maria Eunice, e eles adoram conversar, contar a respeito de suas experiências, sejam elas bem ou mau sucedidas. Aí teve uma noite em que, embaixo de um luar maravilhoso, se abraçaram e, perdidos entre sensações de amor, de encanto, beijaram-se de modo tão romântico que a própria lua, envergonhada, pediu para que uma nuvem cobrisse sua pudicícia. A lua, ao contrário do que pensam, não é para os namorados. É para os enamorados, o que é um pouquinho diferente. De qualquer modo, não quis presenciar os esforços românticos que houve entre um centauro e uma iara. As estrelas sim, essas indiscretas, presenciaram tudo.

 

          Infelizmente o sol raiou, e Maria Eunice retirou-se para o fundo de seu lago, onde se sentia mais prisioneira do que rainha, mais constrangida do que esfuziante. E logo Enio igualmente se foi para longe, galopando para nunca mais voltar.

 

          Hoje Maria Eunice já envelheceu muito, e passa seus dias lembrando da noite em que Enio a tomou nos braços, e em que seus lábios a tomaram como um vendaval. Nas tardes, Maria Eunice costuma cantar, mas até seus cantos não são mais os mesmos, pois o que lhe falta em encanto sobra em saudades.

 

          Enio cada vez mais tem crises de identidade, pois se lhe a paixão o atormenta como uma lâmina, as patas o impulsionam para cada vez mais longe, mesmo que ele assim não queira. Enquanto isso o tempo, mensageiro de todos nós, simplesmente cofia suas longas barbas, enquanto expulsa as nuvens daqui para lá e de lá para cá.

publicado por blogdobesnos às 01:30

O antigo é belo,

 

pleno de história,

 

de passagens

 

cujas marcas se renovam sempre.

 

 

 

O novo é fugaz,

 

efêmero,

 

uma nuvem que evapora.

 

 

O antigo e o novo se configuram

 

por vezes doces,

 

por vezes cruéis

 

ante as nossas aldeias.

 

 

O vento os leva a todos,

 

antigos e novos,

 

e dança ante meus olhos cansados,

 

frios,

 

plenos de poeira.

publicado por blogdobesnos às 01:08

Pretos, brancos, amarelos,

Todos são humanos

Homossexuais, crianças, rebeldes,

Todos são humanos

Operários, renascentistas, pós-modernos

Todos são humanos

Sexistas, machistas, feministas

Todos são humanos

Homo-ludens, homo-faber, homo-erectus

Todos são humanos

Universitários, enfermeiros, sem-teto,

Todos são humanos,

Sensíveis, eróticos, narcisistas,

Todos são humanos

Religiosos, cristãos, novos-cristãos,

Todos são humanos

Assassinos, neuróticos, depressivos,

Todos são humanos

Ordeiros, desordeiros, pensadores

Todos são humanos

Alemães, japoneses, brasileiros, irlandeses

Todos são humanos

Ditadores, artistas, livres-pensadores

Todos são humanos

Clérigos, bispos, papas e rabinos

Todos são humanos

Lésbicas, heterossexuais, músicos e poetas

Todos são humanos

 

São humanos todos os que nos constituem

E que nós vimos em alguma imagem,

Em algumas vozes,

Por algumas vezes,

Ou que talvez nunca vejamos

 

Nas barbáries das guerras, nas covardias dos estupros,

Nas noites eivadas pelas bebidas e pelos aniversários,

Nas camas alugadas, nos seios púberes, nas barbas e nos pelos

 

Nas construções, nas brigas, nas bigas

talvez até nos improváveis mundos,

construímos nossas histórias, nossos medos, nossas rotinas,

nossos eternos desmandos e nossos intensos amores,

elevamos nossas paliçadas, nossos intensos ódios

e, por fim, agradecemos ou amaldiçoamos nossas vidas

vidas de todos nós, pois, afinal

todos são humanos

 

 Hilton Besnos

publicado por blogdobesnos às 01:04

O mamão é uma fruta

 

A mão não é mamão

 

Um ovo não é nada de novo

 

E assim o menino ia aprendendo

 

O que os aultos iam lhe dizendo

 

Madeira não é mamadeira

 

Focinho de porco não é ratoeira

 

Meu Deus! Quanta besteira!

 

 

Um dia o menino ganhou um livro

 

com a ilustração de um automóvel amarelo

 

O menino queria, mas o livro não tinha

 

o desenho de um caramelo

 

E assim o menino ia aprendendo

 

o que os adultos iam lhe dizendo

 

 

O menino e o livro se tornaram amigos

 

e disso nenhum dos dois esqueceu

 

Sempre havia um livro perto

 

quando o menino cresceu

 

 

E, adulto, ele sempre ia aprendendo

 

O que as crianças iam lhe dizendo

publicado por blogdobesnos às 00:30

Os homens passeiam em suas aldeias

 

Aldeias

 

Aldeias que viram povoados

 

Povoados

 

Povoados que viram cidades

 

Cidades

 

Cidades que viram metrópoles

 

Metrópoles

 

Metrópoles que viram megalópolis

 

Megalópolis

 

Megalópolis habitadas por clãs

 

Clãs

 

Clãs que viram aldeias

 

Aldeias

 

Aldeias contidas nas cidades

 

Onde, ainda, passeiam os homens.

publicado por blogdobesnos às 00:13

Não sei exatamente se este é o momento para te dizer o que tento, de há muito, falar. De qualquer maneira, é necessário… ou talvez não, talvez já saibas tudo que vou dizer, é muito provável que sim, pois lês o que a minha mente quer, portanto…talvez não reste mais nada a fazer do que sair, me afastar, carregar comigo as conseqüências do que fiz, e eu fiz, sim, eu fiz, e nada existe para ser negado, ainda mais em relação ao que já sabes, então só resta amargar essa tristeza, essa estupidez que me deixa em tal estado deplorável…Sim, eu vou, entendi que nada tenhlo ou nada devo dizer, que isso já passou, e que teria feito melhor se simplesmente me tivesse ido já de primeira…no entanto, fiquei aqui, e talvez a minha presença atormente tanto por nos lembrar o que vivemos, nossos sonhos, utopias, sentimentos, o que construímos e agora – agora! – saber que nada mais vai restar, senão apenas lembranças.

 

Sim, amanhã parto para São Paulo, no vôo das treze e quinze. Vou direto pra casa do Edgar e então conto para ele… Não, claro que ele não sabia. Infelizmente a única pessoa que eu não queria que soubesse era quem? Você, é claro, e que foi quem primeiro soube, então amanhã estou indo, devo ficar lá talvez por uma semana, e depois viajo para Recife, de onde jamais deveria ter saído…Queres o telefone do Edgar? Ah, sim, não queres, certo, claro tens razão em não querer saber, afinal de contas não vais me ligar.

 

Bem, estou indo, vou levar só o necessário, amanhã venho buscar o resto. É, sim, de manhã cedo um resto vem buscar o outro. Hoje durmo na… ah, sim, desculpe, claro que não queres saber… está bem, então estou indo. Que horas posso passar para buscar? Ah, não sei, não sei…estou indo…

 

Abro e fecho a porta do apartamento e fico aguardando o elevador. Lá fora começa uma chuva fina e de repente, como acontecia quando eu era criança e ficava só, me bate uma melancolia enorme e eu choro. Finalmente, quando o elevador chega ao andar e eu entro, tenho a impressão de que minha vida toda está ali comigo, como um casulo estranho, como uma carga desajeitada que insiste em me pesar sobre os ombros, que me paralisa e anestesia o corpo. Escuto cada barulho dos mecanismos do elevador, enquando descemos, eu e minha angústia. O elevador e eu.


O elevador, estranhamente, parece uma mortalha.

publicado por blogdobesnos às 00:10

O que dizer quando já dissemos tudo, quando já provamos tudo, quando as nossas sensações já explodiram como um arco-íris ilulminado e quando, em outras ocasiões, nossa vontade tornou-se úmida e pegajosa como uma enguia, com um sentido de deslocamento tão grande que sequer nos reconhecemos?

 

O que falar quando, durante muito, muito tempo mentimos, e as mentiras ficaram grudadas em nós como carapaças, quando nos habituamos a iludir de modo tão insano que, após algum tempo de desencanto, de desolação, de ruína, sequer nos importamos se o que dizíamos tinha ou não coerência, sentido, razão…se o que fizemos para nós mesmos redundou em uma indiferença tão grande que nos tomou como as garras de um passado já tão morto dentro de nós?

 

Sim, claro, nada mais havia para recuperar, e tu sabias disso tanto quanto eu, e, por outro lado, nos deliciávamos com esses jogos mesquinhos, de caça e de caçador, em que em algumas vezes somente eu queria descobrir tuas inverdades e em que, em outras oportunidades, eram tuas as vinganças, as desídias, os deboches, os prazeres nas torturas de amor diárias a que nos dedicávamos…

 

Em nome de que fizemos tudo isso? Do amor decerto que não, pois o fomos perdendo com o decorrer de nossas próprias fatalidades, de nossas vontades messquinhas… Nosso amor foi minguando, fenecendo, tornando-se bruma ante nossas pequenas maldades; então porque fizemos, se não foi em nome do amor, talvez tenha sido em razão de um sentimento de culpa que nos acompanha a ambos, que nos entretém assim juntos, como duas serpentes, como duas tristezas que se buscam, como duas tenebrosas sinas…

 

Eu sei que me esqueceste, mas, para ser sincero, eu jamais estive junto a ti; talvez na cama mas para nós, cães de rua, parceiros iguais o tempo todo sempre enjoam…qual de nós teve a iniciativa da traição, eu, tu, com quem, onde, de que modo? Tanto faz, tanto desfaz…Hoje reconhecemos que não somos nada do que dissemos um ao outro que seríamos. Acho que começamos mentilndo aí, e fomos assim, de mansinho nos tornando um o algoz do outro…mas só até hoje, pois agora, por Deus agora! tudo, mas tudo mesmo vai terminar…

 

Gritos varam as noites do mundo, mas mesmo aqueles foram poucos, até o momento em que a lâmina parou de golpear.

publicado por blogdobesnos às 00:08

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