Escritos para você

26
Mar 12

Minhas escuridões, meus breus… nem mesmo eu consigo trafegar incólume em meus desconhecimentos de minha interna arquitetura. O que nutre esses descaminhos, essas tentativas de incursão à minha própria essência é uma mistura, por vezes dramática, de sentimentos. Busco me equilibrar em uma linha que tangencia os sentidos e por vezes me surpreendo com o que de insatisfação e de tristeza posso provocar. Não me é fácil apurar ou mudar o que dá fundamento a tais situações; às vezes me perco em expectativas e em vontades de agrado mas, ao toque de uma frustração, me defendo como se fosse uma fera acuada.

 

Defeitos, problemas? Eu os tenho, normalmente fantasmas que se abrigaram há décadas em minha alma. De quando em quando um deles me arrebata e eu tento detê-lo, deles me esquivo ou os enfrento bravamente, mas sei, claramente, que não os aniqüílo. Por serem fantasmas voltarão a me apertar a alma, a confundir-me ante o espelho, a iludir, mostrando quem talvez eu seja em verdade ou, se não, simplesmente buscando escavar feridas abertas. De todo, mantenho com os meus fantasmas uma relação de repulsa e de aproximação, como um fardo inesgotável que tenho de carregar, pedaços dilacerados de minhas escuridões.

 

 Meus fantasmas, meus algozes normalmente não esperam as noites para me confundirem, me retirarem de minhas provisórias tranqüilidades: são hectoplasmas high tech e a qualquer hora e tempo manifestam suas presenças através de uma inequívoca sensação de desconforto e de deslocamento de meus próprios eixos de referência. Sempre me provocam uma enorme vontade de me evadir, de ausentar-me de onde quer que esteja.

 

No entanto, não há refúgio possível; sinto-me constrangido ante os outros e perante eu mesmo. Normalmente meu senso de crítica aguça ainda mais tal desconforto e uma sensibilidade extrema brinca com os sentimentos de culpa judaico-cristão como um gato faz com um rato. Sinto-me inadequado quanto ao que penso, ao que falo e em relação às mensagens que meu corpo transmite. É como se eu me colocasse em uma situação pífia, implausível, ridícula, o que serve como um catalisador para a raiva, a angústia e a solidão. O sentido de pertencimento e de referência me abandona e eu agradeço quando consigo purgar as inconsistências que insistem em me acompanhar.

 

Saber lidar com essas aparições, com essas tristezas, é uma necessidade imperiosa, pois são elas que, agindo em meu inconsciente, produzem efeitos e conduzem a conseqüências que afetam minha vida e minhas atitudes. Espelhos de nós mesmos, imagens muitas vezes distorcidas e de todo desconcertantes mas, queiramos ou não, fincadas em nossas construições identitárias. Por vezes, sofrer inaugura nossa passagem para o conhecimento. A dor, como o prazer, são parte do que somos. Meus fantasmas reconhecem, sobretudo, as tonalidades, os sons, os cheiros e as pequeníssimas variações do Vento.

publicado por blogdobesnos às 23:53

Novembro de 2006

 

 

Na cozinha, no meio do horizonte, uma avó tecia caprichosamente a teia do destino, quando seu neto pediu-lhe uma bolacha. Ela então largou a tessitura sobre a mesa da paixão, levantou-se e estendeu-lhe o pedido. O menino sorriu, agradeceu e saiu. Feliz, ela afastou da mesa da paixão o ódio, que fervia em uma taça, preferindo a gelada indiferença; bebeu-a de um gole e retomou seu trabalho, mas agora com uma ruga de preocupação.

 

……….

 

Findo seu serviço, deixou a teia do destino sobre a mesa da paixão e saiu. Quando o menino retornou à cozinha, não vendo sua avó, tentou alcançar, ele próprio, o pote de aventura onde estavam as bolachas. Não conseguiu e, sem querer, acabou derramando um pouco de ódio sobre a teia que jazia sob a mesa. Quando o menino finalmente alcançou as bolachas, o calor do ódio começou a interagir com a mesa da paixão, e os sentidos começaram a ficar totalmente perturbados. Um minuto após o menino sair, o fogo começou lentamente a tomar conta do ambiente.

 

………..

 

Enquanto a avó corria desesperada para tentar salvar sua casa de ilusões, os deuses sorriam para Gaia, que absolutamente não estava interessada naquele draminha de menor categoria. Indiferente, o tempo assistia a tudo, enquanto, autofágicamente, devorava uma de suas infinitas porções.

publicado por blogdobesnos às 03:30

2005-04-04

 


Fantasmas enevoam minhas soleiras diurnas. Insistem em me acompanhar, como se fossem presságios, mensagens incompreendidas em uma dimensão fluida com a qual emolduro meus desejos e pensamentos. São sombras, fluxos de solidão e mesmo um pouco de comiseramento; lá estão eles, os meus fantasmas, sorrindo calidamente e estendendo-me suas inequívocas boas-vontades para que eu as toque apenas com um sopro ou um toque de mão.


Mesmo que as saiba carinhosas ou frementes, sutis ou enamoradas, são elas, sombras etéreas, que se desfazem na medida em que as luzes matutinas permitem que meu corpo sinta o sol, que a azáfama diária me envolva, trazendo um sem-fim de ruídos e sensações. Mergulho então entre os zunidos dos celulares, o rumor do trânsito, e minha mente vagueia entre compromissos e despertados desejos, e então convoco-me para passeios diários entre talheres e supermercados, pneus e semáforos tricolores, enquanto meus sentidos captam aqui e ali vozes desconhecidas, trechos de Bach, pedaços de Andaluzia…


Afastados temporariamente é-lhes defeso buscar guarida em outros pensamentos que não os meus, pois pactuamos uma entrega mútua, uma reciprocidade quase amorosa com a qual nutrimos nossos momentos.


As visitas só ocorrem quando se denunciam as primeiras sensações do dia, momentos nos quais me dispo de meus sonhos e o sono ainda está posto em mim como um visgo, querendo mais possuir-me e levar-me de volta para a noite… Ali, somente ali, enquanto espreguiço-me na cama e quando meu rosto percebe a si próprio no espelho é que percebo suas presenças evolando, buscando-me como uma menina busca a amiga para uma brincadeira de roda, um jogo de amarelinha…


Quando encapsulada em minhas rotinas, meus trabalhos e nas aproximações curvilíneas com as quais sustentamos nossas diárias relações, ausentam-se temporáriamente meus convidados.


Retornarão contudo pois sabem que serei eu a dar-lhes sentido, a alimentá-los, a prover-lhe de significação.


Só vivem para mim os meus fantasmas, e vamos assim entretendo uma relação que não se nutre tão-só de lembranças, mas também de uma certa alegria nostálgica, como uma nota cítrica de perfume ou o som de um oboé perdido entre a densidade de uma floresta. Essa nostalgia, que dá-me um pouco de Portugal, assenta-se na segurança de que eu vivi aquilo que meus amigos etéreos constantemente relatam. Eu estava lá e senti o que era agora recontado. Eu mesmo sou tal relato, confundido com uma mistura de melancolia e de saudades.


Então algo em mim torna-se muito real, e a insubstância dos meus transitórios amigos traz-me, por contraste, o real experimentado, adocicado, sensualmente dividido entre minhas conquistas e meus desejos. Não, eles não vem a mim dizer o que eu poderia ter sido, o que eu mereceria ter vivido ou o que eu pensaria ter feito. Contrariamente, recontam-me o que vivi e provei, trazem-me de volta a pulsar do desejo e da paixão.

Assim, embora acuda-me um sentimento de indisfarçável melancolia, vêm-me a certeza e o brilho do vivido, e talvez por isso mantenha junto a mim meus fantasmas, como se eles anunciassem o reinício do verão e o levíssimo ciciar das borboletas.

publicado por blogdobesnos às 03:27

2005-04-04

 


Há talvez nesses olhos um pouco de tristeza que já não pode ser revelada, que o tempo deixou apenas como tímida lembrança perdida em descompassos. Talvez nem mesmo haja saudade em ti, senão um pouco dessa tristeza misturada com uma certa angústia indeterminada, que parece em princípio um medo, uma contenção, e que depois vão tomando conta, de modo imperceptível dos dias, das noites, dos verões, das primaveras…


Isso tudo me parece um pouco de carnaval, um pouco de sodoma e gomorra, mas sem o travo do pecado, dispensando possíveis anjos e arcanjos e por aí todas as celestiais criaturas que pensamos termos em nossas carnes de volúpia e nosso desejo insaciável de prazer. E assim conto novamente as estórias ou as histórias dos olhares ensandecidos, dos gemidos roucos e das luminosidades indecentes que ficavam assim, penduradas sobre o leito a cada vez que te deixavas ferir de tanto prazer…


E eram tais luminosidades tão densas que atravessavam não as noites, mas as almas dos amantes, as suas carnaduras, os seus êxtases e fincavam ali uma permanente iluminação, dessas que o tempo não consegue arrancar, e que vamos levar em nossa memória até o dia em que não estivermos mais aqui.


Talvez seja isso, talvcz essas luzes que provêm dos amores que tivemos, dos momentos de gozo e de paixão sem freios ou moralismos grotescos que irão acender as luzinhas que conduzirão nossos espíritos até o infinito… esses pequenos fragmentos, adotados em grãos e pólens nos transportarão aténossas novas moradas.


Espanta pois a tua melancolia, pois, entre milhões vivestes o amor, quantas vezes mais o vivestes como um manto a te cobrir a pele nua? E se assim foi, ai, por que as angústias, os jogos, as pequenas ou grandes mentiras, se o que te deu a vida foi dela o melhor, os momentos de mel e de lassa quentura entre os braços de quem amastes?


Assim, bela criatura, não reclames do que poderia ter sido e não foi e menos ainda lamentes o que considera infortúnios, asas do acaso decifradas em painés da paixão; contrariamente, faz voltar para teu peito e para a tua alma os momentos de intensa ternura que provocastes e os enlevos que a outra pessoa trouxestes e que tanto te deixaram encantada e encantadora. Essa a tua principal luz: a capacidade de amar.

publicado por blogdobesnos às 03:24

2005-05-02

 


Não vou te contar nenhuma novidade; confidenciar é abrir portar, conceder espaços, por isso me calo, fixo minhas memórias em meu corpo, gravadas como as inúmeras linhas de tempo que por vezes me tiram a capacidade de pensar. Em me reservando, resgato-me de teus movimentos. Preservo-me de ti na medida em que nada te digo, nada comento de fatos, sentidos e sentimentos que em minhas lembranças me acossam, me sacodem, me deixam apreensivo ou exultante. Quero-te assim, recordação de um carnaval distante, uma imagem de colombina, pedaços de confete me invadindo a boca, os olhos, possuindo, possuindo, possuindo.


Minhas modernidades já caíram em desuso; as teorias se desvaneceram como nacos de gelo, minhas seguranças são couraças amordaçadas. Cintos cingem-me., vendas cobrem-me os olhos, e mesmo assim eu persisto no sonho de tentar ver o que mais me tolhe os movimentos. Quero um banho tépido, quero adormecer em uma cama macia, relaxar, esquecer-me de forma tão absoluta até me tornar um espaço de solidão diante do vazio. Sequer quero que me acudam remorsos, tristezas, alegrias ou exultações. Não te aproximes de mim, tenho medo de sangrar, de que fístulas novamente circundem minha alma, que tuas lembranças me afoguem em um denso anel de gelo.


Quero apenas ficar assim, quieto, como um romance inacabado, como um cigarro queimando lentamente, como um bicho acuado. Deixa-me calado, permita que eu me emudeça, não me perguntes mais nada.

 

Não me recordes, em tua ausência, a ausência tua na qual me tornei.

publicado por blogdobesnos às 03:19

Comprei uma calça de veludo e uma camisa. Loquei uma adolescente, dessas que estudam em alguma faculdade e não tem como pagar as prestações. Fiz sexo por três horas e paguei com meu cartão de crédito. Assisti a um filme cult, reservei algumas moedas pro flanelinha que cuidava do meu carro. Foi um dia razoável, até o momento que me deitei para dormir.


Três horas da manhã e meus pensamentos me atropelavam, então tomei um calmante, bebi um litro de Coca-cola e tentei relaxar. Amanhã, novamente, vou acordar e, como será um dia de trabalho, já comecei a me sentir mal, derrotado, apreensivo. Sempre tenho estas síndromes no final de semana. Ainda bem que vivo só, porque assim nada me alcança. Minha ex-mulher vive na Guatemala e tenho dois filhos que não vejo mais ou menos há uns quatro meses. O tempo liquidifica tudo, e já não sei se não estou virado apenas em uma lembrança.


Mês que vem viajo para São Paulo, depois vou ao Rio, me hospedo num quatro estrelas e trabalho que nem um cão. À noite, provavelmente serei ofertado com um corpo feminino, que normalmente os clientes do meu empregador disponibilizam para os executivos mais influentes, como eu. Estou assomado por responsabilidades e não consigo dormir nem acordar direito.


O papa morreu, e eu com isso? Habemus papa? Então está tudo ótimo. Anteontem estive num simpósio meio estranho, sobre educação e aquelas bobagens todas. Citaram um tal de Paulo Freire e um outro que deve ser comunista pelo nome, um fulano chamado Vygotsky (ou seria Ingoski?). Não sei e não quero saber. Fui ao seminário para agradar meu chefe, que me passou o convite e ainda me recomendou que eu entrasse quieto e saísse calado. Seminários de educação são sempre monótonos. Bom mesmo é a Bolsa.


Hoje ainda, no semáforo, um menino me pediu um dinheiro. Dei, dei sim a primeira nota que me apareceu na carteira, dez dólares. Mas não me arrependo, tenho muito medo de tomar um tiro nos cornos. Minha úlcera voltou a doer, nada que um leite quente não resolva. Minha vontade é dormir, dormir, dormir. Minha cabeça dói e o sexo que tive não me deixou totalmente satisfeito. Acho que vou ligar meu laptop.


Pelo menos me distraio, enquanto o sol não chega.

publicado por blogdobesnos às 03:15

2005-04-03

 


I

 


Ontem vi um homem no centro de Porto Alegre. Ele estava em andrajos e acariciava um cão, que estava dormindo à calçada. Uma cena absolutamente comum, mas chamou-me a atenção o modo enternecedor utilizado pelo homem, jovem, e pelo menos momentaneamente condenado à mendicância. O carinho ao cão era, em verdade, a única possibilidade que possuía o mendigo de acariciar algo vivo. Por ele passavam centenas de pessoas por dia, mas para as mesmas o jovem mendigo era invisível.


Vestia uma capa de invisibilidade de que nos fala Bauman. Dentro de uma sociedade cujos valores são absolutamente fluidos, o mendigo não poderia ser objeto de carinho de ninguém. Virtualmente não existia para a sociedade, ou seja, para a sociedade de consumo; era, portanto,um pária.


Seu gesto de carinho, portanto, não poderia ser compartilhado entre aqueles humanos iguais a si e que eram parte de seu degredo. Deveria ele contentar-se com a possível atenção de um cão.


Jovem, em andrajos, sujo, aquele jovem homem ali estava, acariciando o cão devotadamente, enquanto brindava também com sua própria invisibilidade os transeuntes, eu inclusive, que registrei a cena e fiquei pensando nas possibilidades que temos de sermos felizes e de nos realizarmos. Havia ali um quê de desequilíbrio, uma sensação de abandono não mitigado, uma solidão construtora de paredes.


Havia ali um mendigo e um cão. E uma esperança humana de consolo, que se resumia a possibilidade de um latido amistoso. Ou, quem sabe, de uma dentada. Fosse a segunda opção, cessaria a invisibilidade animal, mas, sem dúvida, jamais a indiferença humana.

 

 

II

 


Um homem só existe para a nossa sociedade, quando é um consumidor. Quanto menores forem suas possibilidades reais de ingressar no jogo de um mercado inesgotável e narcisicamente neurotizante, menos possui visibilidade em relação a sua comunidade. Os contingentes de não-consumidores são cada vez mais julgados párias e marginalizados pela sociedade e por isso devem ser afastados.


No entanto, ao olharmos esse contingente, se a nossa combalida humanidade nos assalta, de outro pensamos em fugir, em não ter contato com essa triste realidade que configura um pesadelo do qual tentamos escapar. Em verdade, a marginalidade incomoda demais não tanto pelo substrato de violência a ela associada, mas porque assemelha-se a um espelho, a uma mensagem tácita do que a maioria das pessoas tenta esconder: sua imensa fragilidade em relação a um mundo consumista e doente, por um lado, e sua ostensiva perda de humanidade, por outro.


Somos seres em trânsito, consumindo transitoriamente em um mundo de valores que se esfumaçam como um nada preso entre nossas mãos. Somos todos, passiva ou ativamente construtores da marginalidade social, a menos que decidamos optar pela solidariedade e por exercermos nossa cidadania e não por sermos invariavelmente hipócritas. Mas, conforme disse Bauman, o primeiro valor a ser sacrificado pelo mercado de consumo é a solidariedade.


Se assim é, que pelo menos as capas invisíveis não nos inviabilizem de enxergarmos a realidade e de críticamente denunciarmos sua existência. Lutar contra a desigualdade não é um anátema, não é uma proposta religiosa, é uma questão de sobrevivência e de dignidade humanas.

publicado por blogdobesnos às 03:07

2005-04-04

 


É, acho que talvez ali, um pouco mais acima, parece que sim, foi ali que eu vi, há muitos anos atrás um castelo; não, não, faz muito tempo, e eu posso garantir que eu não tinha sequer doze anos… No entanto não poderia ter esquecido, porque eu não tinhasequer noção do que era um castelo, no máximo tinha visto alguns em desenhos, e embora fossem bonitos sempre eram desenhos, não era nada real; mas aquele não, era verdadeiro, simplesmente estava ali.


Parti então para avisar a todos na cidade que no meio da névoa do mês de maio eu havia visto um castelo. Corri, descendo os caminhos entre os matos, e quando não podia correr, andava o mais rápido possível, até que pudesse divisar a cidadezinha onde nascera, algumas milhas abaixo…

Finalmente quando cheguei lá, nem o verdureiro acreditou na minha história. Eu falava com pessoas que me conheciam há um bom tempo, e que tinham me visto nascer, e ninguém, nenhuma delas acreditava que houvesse realmente um castelo. Ou diziam que eu tinha sonhado, ou que estava brincando ou, sem paciência, simplesmente me chamavam de mentiroso.


Então, por causa da reação das pessoas eu fui desanimando de contar, fui perdendo a vontade… No fundo era uma mágoa muito grande, porque o meu castelo de certa forma revelara que muitos a quem eu estimava não me consideravam mais que considerariam um mentiroso qualquer; foi então que eu achei que o castelo era realmente meu, pois havia me ensinado algo importante não sobre eu, mas sobre os outros…


Mal raiou o dia seguinte e lá estava, e assim fui me habituando a vê-lo, sempre de longe. Quando havia muita luz, resplandecia como um raio de sol, como um prisma de azul celeste. Um dia, porém, parti, mudei-me de cidade e nunca mais pude ver o castelo. Durante toda a minha vida ele acompanhou-me, como uma sedução, como um presságio, como um pedaço da minha própria carne…


E agora, após ter vivido tanto, após ter amado tanto, ter decepcionado pessoas, ter sido um herói e por vezes um vilão, sinais me apontam que é o momento de habitar uma nova morada, onde meu corpo alquebrado e minhas dores possam consolidar-se em uma nova vida, em uma dimensão diferente. Àquilo que chamam morte, o castelo mostrou-me ser um novo caminho, uma passagem e a minha energia agora flui em outro diapasão, como se desorientasse meu próprio sentido, na busca de novas referências e distintos padrões…


Finalmente, queiram ou não, acreditem ou não, sei que vou encontrar meu castelo, e se ele sempre esteve em meus sonhos e minhas penúrias, agora, sem dúvida agasalhará, como um colo materno, as fibrilações da minha alma e os contentamentos das minhas imaterialidades.

publicado por blogdobesnos às 02:11

Fevereiro de 2007

 

E quando não há nada para escrever, e ficar olhando pela janela totalmente plena de chuva é o marasmo completo? Como é que nos livramos de uma estadia breve de tristeza, quando o ânimo brinca de sombra de Peter Pan? Aqui esperamos os acontecimentos, os fatos, as notícias, as fotografias, o que virá, mas, desafortunadamente, nada vem, e se algo acontece, não tenho conhecimento.

 

Aí está uma palavra que é um mundo: conhecimento. Se não há ciência, se não há qualquer informação, nada a se fazer presente, só resta então buscar o passado que existe em cada um de nós.

 

Os projetos faliram, e não há humanidade sem projeto. Se nada me resta a fazer, que eu possa me alienar totalmente e mergulhar em um local onde mesmo a minha sombra não importe, onde o meu corpo possa flutuar como se estivesse em gravidade zero.

 

A câmara negra me espera.

publicado por blogdobesnos às 01:46

23 demarço de 2007

 

 

 

A INDICAÇÃO

 

Estranhamente, quando Hélio foi consultar o mapa rodoviário, não o encontrou dentro do porta luvas do carro. Como, se tinha certeza que havia deixado ali? Fez uma nova busca, que também resultou infrutífera. De repente, foi tomado por um sentimento de intensa desolação. Perdera-se em uma estrada vicinal, no interior de Pernambuco.

 

A realidade, ali, era um sertão agreste e o calor sufocante que invadia o automável, enxarcando-lhe a camisa. Ficou feliz por estar de bermuda e chinelos. O velocímetro informava que havia combustível para mais cinqüenta quilômetros, insuficentes para retornar para o vilarejo mais próximo.

Desligou o motor do carro, desceu e achou uma improvável sombra, onde descansou enquanto fumava um penúltimo cigarro. Agora, o que fazer? Olhou para o céu e, pela primeira vez na vida, teve a sensação estranha de que não era ele que observava as nuvens, mas o contrário. Enquanto matutava a respeito do mapa que sumira, alguns cães perdidos e esquálidos passeavam daqui prá acolá. Um deles havia latido, agora mesmo, à sua esquerda. Sem alternativa, Hélio ligou a ignição e prosseguiu pela vicinal, esperando que, envim, a sorte começasse a lhe sorrir.

 

Duas horas de muita poeira depois, encontrou, a contragosto, o fim da vicinal, que se perdia em meio ao solo gretado. Outra estranheza, uma estrada terminar sem um ponto de destino. Caramba! fora enganado outra vez. Desceu do carro e, a uns duzentos metros de distância, avistou um poste de madeira. Andou até lá. No mesmo se encontravam pregadas umas tábuas velhas, num triste simulacro de sinalização. As pontas dessas tábuas haviam sido toscamente aparadas, e daca uma apontava para diferentes direções. Desconfiado, mas curioso, e com uma angústia que lhe ía crescendo no peito, dirigiu-se ao poste.

 

Em apenas uma das madeiras havia uma escrita irregular, obra provável de um semi-analfabeto, onde se lia: “PRRASA DO 1/2 DO MUNDO”. A placa apontava para o oeste, ainda mais para o interior do sertão.

 

O que seria essa praça do meio do mundo, indagava Hélio a si próprio, enquanto retirava a camisa grudada ao corpo. O que era aquilo? Se era uma praça, deveria existir no mínimo um vilarejo, mas se assim era, porque o nome da praça e não do provável vilarejo? As dúvidas, o calor, a angústia íam se acumulando. Afinal, onde diabos ele estava? Na placa não constava qualquer indicação de quilometragem.

 

Atarantado, já sem camisa, sentindo que a fome e a sede iriam em breve ficar insuportáveis, abriu a porta do carro, do lado do carona e sentou-se pensando sobre o que deveria fazer. Só podia seguir em busca da tal praça, seguindo a orientação precária da placa. Tudo, porém podia ser um truque criado por bandidos de estrada, rondando aquele sertão entregue à própria sorte.

 

Desanimado, olhou o carro coberto de poeira grossa, que já havia se transformado em uma cobertura de areia. Passou o dedo indicador no capô, abrindo um caminho que revelou a pintura original do veículo. Verde, a cor era verde.

 

Não deixava de ser irônico aquele verde no automóvel, no meio do sertão deserto, quente, gretado. Deixou-se descansar um pouco ali, esperando, talvez uma aragem. Finalmente, depois de alguns minutos, virou a chave de ignição. Nada. De novo tentou. Nada foi a resposta. No desespero, forçou a ignição. O carro apagara e a sensação é que era para todo o sempre. Esperou mais um tempo e quando tentou ligar novamente, o painel anunciou o auto-aquecimento.

 

Enraivecido, saiu do carro e bateu a porta com violência; o desespero de sentir sua imensa soliddão abriu-lhe um buraco no peito. Não havia carro, não havia celular, tampouco alguma indicação segura e, se continuasse assim, dentro em pouco a esperança também iria se esvair.

Daria tudo por uma refeição decente, por uma cama confortável onde pudesse repousar o corpo e, especialmente, seus nervos, já em frangalhos. Queria tomar um banho, queria dormir, dormir, esquecer tudo aquilo.

 

Poucas vezes Hélio Martins Andrade se sentira tão impotente, tão submisso, tão ao-deus-dará. As lembranças da irmã o alcançaram como um trem. A irmã no hospital de Belém, sendo consumida pouco a pouco pelo câncer que lhe dizimava hora após hora, dia após dia, até o fim. O filho único, do qual havia se extraviado. O rapaz, agora com dezessete anos, morava no Rio Grande do Sul. A história era longa, e não podia se dar ao luxo de pensar nisso agora.

 

Os abandonos, as perdas, os lutos, tudo, tudo parecia absolutamente real, quando o choro represado por anos aflorou como uma cascata incontrolável de seu peito. Beber, andar, comer, andar, tomar um banho, andar até a praça do meio do mundo parecia a única solução.

Algum tempo depois (ou seriam horas, talvez), ainda profundamente angustiado, decidiu pelo único caminho possível. Voltou ao carro, tentou novamente a ignição. Nada. Apanhou uma pequena valise de mão e começou a trilhar o seu rumo. Fosse o que fosse, as pernas o levavam como autômatos, como em um sonho, para a praça do meio do mundo.

Dez metros acima, o carcará o observava.

 

 

 

A DESCOBERTA

 

 

 

No relatório que o delegado Raimundo de Oliveira recebeu, constava que Hélio Martins Andrade, vendedor, sumira com seu carro duas semanas antes, em algum trecho do sertão. O automóvel que o mesmo dirigia era um Opala verde, com placas de Diamantina, São Paulo. O policial, experiente, examinou com cuidado o relatório. Já havia tentado entrar em contato com pessoas da família do desaparecido, mas havia apenas uma prima que morava em Quixeramobim, e que nada sabia da vida e do cotidiano de Hélio. Ah, sim, havia um filho, fruto do casamento desfeito anos atrás, mas o rapaz morava muito longe dali, em Candelária no Rio Grande do Sul, e não via o pai há pelo menos três anos.

 

Na empresa onde Hélio trabalhava, forneceram um roteiro de suas viagens e com base no mesmo, o delegado começou a busca.

 

O inquérito policial se encontrava entre centenas, e só foi objeto da atenção especial do delegado quando o mesmo recebeu um telefonema na madrugada anterior, por volta das três e meia da madrugada. Uma voz metálica dissera: “O Hélio está conosco, na praça do meio do mundo, na estrada vicinal”. Foi a única coisa dita. Com base no telefonema, que não pode ser rastreado (essas coisas só funcionam na televisão e em cidades grandes, pensou Raimundo), o delegado, com dois policiais finalmente encontraram a vicinal. Seguindo pela mesma, localizaram um opala verde. Era estranho, mas no meio daquele polvaredo o automóvel encontrava-se absolutamente limpo, como se alguém estivesse ali cuidando de sua aparência, o que era absolutamente improvável, visto que não havia qualquer cidade, vilarejo ou comunidade em um raio de oitenta quilômetros do local. Não havia qualquer indício de violência no interior do veículo. Nenhum sinal de Hélio, a não ser as roupas que havia deixado no carro e um mapa rodoviário, que se encontrava no porta luvas. Como então, Hélio havia se perdido?

 

Se a sua experiência valia, pensou Raimundo, seria improvável encontrar o desaparecido em boas condições, em razão do local ser absolutamente êrmo e distante de tudo. Outra coisa que também não ficava muito claro é porque Hélio havia abandonado o carro, uma vez que a chave de ignição, que ficara ali, fazia o motor funcionar perfeitamente. Mais intrigado ainda ficou o delegado quando o painel apontava gasolina suficiente para pelo menos mais cento e cinqüenta quilômetros de rodagem. Ladrões de estrada praticamente inexistiam na região. Parecia evidente que Hélio havia parado o carro e descido a pé porque quisera. Os pneus estavam perfeitos.

 

No calor da tarde o policial teve a sua atenção despertada para um poste, onde haviam madeiras toscas pregadas. Enquanto os outros policiais procuravam pistas, examinou as “placas” de sinalização com muito cuidado, mas além da inscrição famosa e popular “Jesus voltará”, não havia qualquer indicação de coisa alguma.

 

“Meu Deus, esse povo ficou é doido com esse calor”, pensou Raimundo, enquanto, indiferente, retornava em direção à viatura policial. Duas horas depois, o local estava vazio. Raimundo e seus colegas tinham certeza de que Hélio havia abandonado o local, que o automóvel estava perfeito e que nada existia num raio de quase oitenta quilômetros dali. Quando chegasse à cidade, comunicaria o fato à prima do desaparecido e à seu filho gaúcho.

A voz metálica continuava, cada vez mais, um mistério.

O sol ía a pique quando o polvaredo levantado pelos pneus do carro encobriram o carcará que os observava e que, agora, batia as asas rumo ao oeste.

publicado por blogdobesnos às 01:38

Março 2007

 

Quando cantei de modo tão apaixonado e ela não notou minimamente o que queria dizer a letra da música, muito menos que eu cantava especialmente para ela, realmente me decepcionei e naquele instante, se pudesse, teria engolido a música inteira, de arrependido.

 

Não há nada pior para quem ama do que passar a ser um nada para o ser amado.

 

Não é a rotina nem a raiva, nem a ira que matam o amor, mas a indiferença plena. Quando senti essa enorme sensação de vazio, que era tempo perdido, me encontrei mais abatido e confuso. Como amar daquele jeito, meu Deus, seria uma sina, seria uma brincadeira do destino e justamente comigo, que sempre tive uma agenda de sinceridade à toda prova, e que mesmo quando traía, o fazia com cuidado e discrição, para que nada fosse notado, com medo de perturbar a ordem normal das coisas?

 

Mas era a realidade, ela estava ali somente com seu corpo, mas sequer me olhava.

 

Embasbacado, desliguei não só o karaokê, mas me afundei no meio da festa, procurando estar o mais longe dela quanto possível. Quando tudo terminou, foi só o tempo de apanhar o carro e rumar para o meu apartamento, onde, solitário mas amigo, o travesseiro me esperava. No outro dia ainda teria de trabalhar e o sonho de tê-la comigo parecia se evaporar como a neblina que caía sobre a cidade e, especialmente, sobre a minha alma.

publicado por blogdobesnos às 01:34

Aguardo por ti como um sonho que fica ali, delicado mas firmemente aguardando o momento de transpor o mural da consciência e impor sua presença como uma tormenta de fim de tarde. Talvez eu seja aguardado ou talvez isso não passe de uma vontade pessoal, a de que você me ame, nem que seja ali, naquela zona um pouco menos que inconsciente.

 
Desejos confirmam possibilidades de posses. Cultivo minhas tristezas como uma sede que somente você pode aplacar. De todo modo, independentemente da sua escolha, continuo aqui, esperando invadir seu sono. Ou a sua vida. Ou o seu desejo. Ou, menos que tudo isso, simplesmente espero aqui, em uma noite de tardia espera, em uma outra dimensão que se desdobra sobre o meu corpo e me mantém um pouco náufrago das minhas madrugadas. Um iceberg cativo do frio que me corrompe e que me mostra a tua face, ainda um mistério que pesa sobre as minhas pálpebras.

 

Bonne nuit.

publicado por blogdobesnos às 01:16

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