“-Sonhos de uma noite de verão, isso não é Beethowen?”
“-É sim”, respondeu Leopoldo, “é a marcha nupcial, aquela que vais ouvir depois de amanhã! Ansioso, não?”
Augusto recostou-se na poltrona, sorriu, mas efetivamente não queria ouvi-la, pelo menos na condição de protagonista…e Leopoldo sabia disso. Entendia, contudo, o amigo, que queria aliviá-lo de tensões e angústias e especialmente gostaria que o fantasma de Ana o abandonasse…para Augusto, contudo, ela não era um fantasma, mas o melhor que podia acontecer em sua vida…
No entanto, esse melhor estava descartado…não haveria mais Ana na vida de Augusto, e conformar-se era mais o que podia fazer. Afinal de contas, Clara era uma boa moça (grande qualidade!), ótima cozinheira (maravilhosa na panqueca…) e ….e…..bem, Augusto não saberia o que mais….ah, sim! Sincera, leal, prudente….Sim, Clara tinha todas essas qualidades…seria uma boa esposa ou, quanto mais não fosse, uma ótima dona de casa, eufemismo para se tratar uma doméstica com a qual casamos, pensava ironicamente…
Augusto ergueu-se do sofá, passou por Leopoldo e nada disse. Trancafiou-se no banheiro. Leo observou o amigo….o amigo tolo, que perdera Ana por rusgas e, especialmente, por teimosia. Mas, enfim…Tinha vontade de dizer-lhe: “-Não vai a esse casamento! Telefona, vai lá, termina com essa agonia!”, mas justo por conhecer o amigo, não iria fazê-lo. Sabia que Augusto teria um ataque histérico, mas que ficaria assim mesmo como estava há minutos atrás, um homem derrotado atirado num sofá, pensando no que deveria ou poderia fazer, mas que nada agilizaria…
Lembrou-se de quando eram bem jovens, e em como as coisas que Augusto mais gostava escapavam entre seus dedos…assim foi com Margarete, namoro forte na adolescência, assim foi com o emprego no banco, por uma briga sem sentido com um gerente, assim foi na faculdade de agronomia, que foi simplesmente abandonada…depois, outros fatos que apenas demonstravam a capacidade de Augusto em não reter o que mais desejava. Lembrou-se de Vitor, de Pedro, de Amália, de João, de Rosa…tantos que Augusto conhecera, tantas amizades que faziam parte do cotidiano dele e que tinham gradualmente se afastado…sobrara quem, afinal? Ora, eu mesmo, pensava Leo, enquanto premia o botão do tape-recorder, para que Roberto Carlos invadisse o ambiente…
Leopoldo caminhou até a janela do apartamento. “Eu disse pro Augusto não alugar isso, eu avisei.” De onde estava, a única visão que tinha era uma parede já descascada, sombria; escutava vozes dos outros apartamentos, crianças gritando ou brincando, adultos aviando providências ou rindo…
Ouviu o estalar da porta do banheiro, Augusto saíra e lhe mirava com um olhar sombrio; caminhou até o bar e trouxe uma garrafa de vinho, com dois cálices. “Ai, caramba, vai começar tudo de novo”, pensou Leo, enquanto estendia a mão para tomar o primeiro gole…
…………..
Toda essa situação veio à mente de Leopoldo quando, andando apressadamente pela Mostardeiro, sentiu um toque em seu ombro e, ao virar-se deparou-se, após vinte anos, com Augusto. Abraçaram-se, e Leo não conseguiu esconder a surpresa. Decidiram matar as saudades; durante esse tempo Augusto viajara para o norte do país, tivera três filhos com Clara (“Olha a foto do Jorginho, esse tem onze, é macho que nem o pai!”), e vários empregos, todos de vendedor.
Há três anos atrás havia separado, e vivia só, num apartamento da Cristóvão. Conversaram longamente, durante horas, esquecidos do tempo. Em determinado momento, Augusto perguntou por Ana (caramba, ele não havia esquecido…), se Leo soubera o que havia sido feito dela. Disse que não, que tinha estado fora de Porto Alegre durante muitos anos, e perdido o contato. A noite caía quando finalmente se separaram. Como é freqüente nesses encontros de amizades tardias, haviam perdido a naturalidade que somente o cotidiano oferece. Falaram sobre o que haviam feito durante o tempo em que estiveram apartados. Ambos sabiam que aquela era uma despedida definitiva, que não se veriam mais. Talvez por isso, somente por isso, e por ter notado ainda nos olhos do amigo a antiga paixão, foi que Leopoldo não convidou-o a jantar em sua casa.
Afinal, Ana poderia não compreender…