Escritos para você

25
Mar 12

“-Sonhos de uma noite de verão, isso não é Beethowen?”


“-É sim”, respondeu Leopoldo, “é a marcha nupcial, aquela que vais ouvir depois de amanhã! Ansioso, não?”


Augusto recostou-se na poltrona, sorriu, mas efetivamente não queria ouvi-la, pelo menos na condição de protagonista…e Leopoldo sabia disso. Entendia, contudo, o amigo, que queria aliviá-lo de tensões e angústias e especialmente gostaria que o fantasma de Ana o abandonasse…para Augusto, contudo, ela não era um fantasma, mas o melhor que podia acontecer em sua vida…


No entanto, esse melhor estava descartado…não haveria mais Ana na vida de Augusto, e conformar-se era mais o que podia fazer. Afinal de contas, Clara era uma boa moça (grande qualidade!), ótima cozinheira (maravilhosa na panqueca…) e ….e…..bem, Augusto não saberia o que mais….ah, sim! Sincera, leal, prudente….Sim, Clara tinha todas essas qualidades…seria uma boa esposa ou, quanto mais não fosse, uma ótima dona de casa, eufemismo para se tratar uma doméstica com a qual casamos, pensava ironicamente…


Augusto ergueu-se do sofá, passou por Leopoldo e nada disse. Trancafiou-se no banheiro. Leo observou o amigo….o amigo tolo, que perdera Ana por rusgas e, especialmente, por teimosia. Mas, enfim…Tinha vontade de dizer-lhe: “-Não vai a esse casamento! Telefona, vai lá, termina com essa agonia!”, mas justo por conhecer o amigo, não iria fazê-lo. Sabia que Augusto teria um ataque histérico, mas que ficaria assim mesmo como estava há minutos atrás, um homem derrotado atirado num sofá, pensando no que deveria ou poderia fazer, mas que nada agilizaria…


Lembrou-se de quando eram bem jovens, e em como as coisas que Augusto mais gostava escapavam entre seus dedos…assim foi com Margarete, namoro forte na adolescência, assim foi com o emprego no banco, por uma briga sem sentido com um gerente, assim foi na faculdade de agronomia, que foi simplesmente abandonada…depois, outros fatos que apenas demonstravam a capacidade de Augusto em não reter o que mais desejava. Lembrou-se de Vitor, de Pedro, de Amália, de João, de Rosa…tantos que Augusto conhecera, tantas amizades que faziam parte do cotidiano dele e que tinham gradualmente se afastado…sobrara quem, afinal? Ora, eu mesmo, pensava Leo, enquanto premia o botão do tape-recorder, para que Roberto Carlos invadisse o ambiente…


Leopoldo caminhou até a janela do apartamento. “Eu disse pro Augusto não alugar isso, eu avisei.” De onde estava, a única visão que tinha era uma parede já descascada, sombria; escutava vozes dos outros apartamentos, crianças gritando ou brincando, adultos aviando providências ou rindo…


Ouviu o estalar da porta do banheiro, Augusto saíra e lhe mirava com um olhar sombrio; caminhou até o bar e trouxe uma garrafa de vinho, com dois cálices. “Ai, caramba, vai começar tudo de novo”, pensou Leo, enquanto estendia a mão para tomar o primeiro gole…


…………..

Toda essa situação veio à mente de Leopoldo quando, andando apressadamente pela Mostardeiro, sentiu um toque em seu ombro e, ao virar-se deparou-se, após vinte anos, com Augusto. Abraçaram-se, e Leo não conseguiu esconder a surpresa. Decidiram matar as saudades; durante esse tempo Augusto viajara para o norte do país, tivera três filhos com Clara (“Olha a foto do Jorginho, esse tem onze, é macho que nem o pai!”), e vários empregos, todos de vendedor.

 

Há três anos atrás havia separado, e vivia só, num apartamento da Cristóvão. Conversaram longamente, durante horas, esquecidos do tempo. Em determinado momento, Augusto perguntou por Ana (caramba, ele não havia esquecido…), se Leo soubera o que havia sido feito dela. Disse que não, que tinha estado fora de Porto Alegre durante muitos anos, e perdido o contato. A noite caía quando finalmente se separaram. Como é freqüente nesses encontros de amizades tardias, haviam perdido a naturalidade que somente o cotidiano oferece. Falaram sobre o que haviam feito durante o tempo em que estiveram apartados. Ambos sabiam que aquela era uma despedida definitiva, que não se veriam mais. Talvez por isso, somente por isso, e por ter notado ainda nos olhos do amigo a antiga paixão, foi que Leopoldo não convidou-o a jantar em sua casa.

 

Afinal, Ana poderia não compreender…

publicado por blogdobesnos às 23:38

Talvez nada mais eu possa contar que seja minimamente novo, algo que não conheças, sequer uma lembrança das mais frugais te servirão como novidade. Sabes tudo de mim, e, ao sabê-lo, és um curioso espelho de mim mesmo. Se quebrares, quebrarei contigo, pois em tua memória habitam todas as minhas histórias, fugazes ou não, tristes e alegres, hipócritas ou sagazes, mas compartilhadas sempre.

 

Pensei eu: como romper-te se romperia a mim mesmo? Como arranhar esse cristal que tanto em aborrece e me deixa desconfortável se, em te ferindo, firo minha própria essência? Criei sozinho este duo que agora me confrange. Sim, fui eu mesmo que te criei nova criatura da matéria que antes era. Tempos atrás era um desconhecido, mas hoje não. Hoje minha história está cravada, lavrada em teu corpo, em tua mente. Me conheces a um ponto que não me resta mais nenhuma alternativa senão imolar-me a mim mesmo através da tua alma.

 

Foi assim que planejei, meticulosamente, livrar-me de ti, sabendo, contudo, que alijaria de mim mesmo a melhor parte que jamais me coubera. Foi triste mas empreendedora a tarefa de planejar a tua morte, e em tal mistério projetei meus melhores dias. Pouco me importa, por ora, se já não estás mais aqui. O que me tortura é a ironia.

 

Não era suficiente estar longe, apartado de ti, porque sempre haveria a possibilidade de que viesses até mim, para denunciar minhas idiossincrasias, para rires dos meus desesperos, eis que em ti residia minha melhor parte, mas também a pior delas, a que continha as ignomínias que praticara. Não havia, portanto, de simplesmente apartar-me de ti, que isso em nada garantiria minha tranqüilidade e minha paz de espírito. Há mistérios e desígnios que se devem cumprir independentemente de quaisquer remorsos, maiores eles sejam. Foi então que, lembro-me agora, num sábado pela manhã, comecei laboriosamente a industriar tua morte, teu desaparecimento para sempre, e, por outro lado, meu conforto absoluto.

 

De todos os caprichos que cumpri em minha miseraável existência, a tua liquidação foi o que menos me custou, dadas as vantagens de não confrontar-me mais contigo. O plano foi simples, mas não importa aqui contar como ele ocorreu, menos ainda os fatos que fiz ocorrer aos poucos, de maneiras sutis e casuais e que redundaram em tua morte. Talvez concorrer para teu desaparecimento deste mundo tenha sido, de todas, a minha obra mais bem acabada, mais perfeita, aquela que não levantou suspeitas, tanto que posso, agora, dizer tranqüilamente que, mesmo sendo descoberto, não seria preso em hipótese alguma.

 

O tempo que protege os criminosos quis também estender seu manto igualitário sob minha cabeça. A justiça dos homens, se é que ela existe, fracassou completamente em meu caso, porque ela mesma decretou que o tempo é meu aliado. Se eu entrasse numa delegacia qualquer e mesmo confessasse e assinasse de sã consciência minha confissão, mesmo assim nada de ruim me aconteceria. Deus protege seus fiéis, e o diabo ilude a todos.O diabo, se pensarmos bem, é uma criação de Deus, e portanto, a Ele não ilude, mas nós, que vagamos entre os Altos Desígnios de Um e a ignomínia do outro, nos contentamos em arquitetar pequenas maquetes de civilidade. Estou pois, mergulhado em um sistema legal que protege o meu crime, acobertado pelo tempo. Assassino sou, mas dizê-lo ou não, nada muda. Melhor então que o diga, para que meus ânimos se acalmem.

 

Quando livrei-me de ti e privei de mim mesmo meu melhor sentido de vida, tentei ainda continuar procurando meus caminhos, mas o peso da tua ausência não me fez suportar tantas e tantas estradas de desilusão. Entreguei-me ao vício da escrita, podendo então passar a escrever minhas misérias e travestí-las nos corpos e nos perfis de imaginados personagens. Ganhei muito dinheiro associando ilusões e jogando desavergonhadamente com as mais grotescas fantasias que o homem pode imaginar. E hoje estou aqui, plenamente puro para receber de todos as glórias com as quais me homenageiam.

 

Se as minhas mãos ainda guardam simbolicamente o cheiro do sangue que provoquei, meu sorriso e minha alma se alegram pois não há poder maior do que os aplausos com que homenageiam esse mero escritor de fanfarras. Mas, de todo, se querem fantasias, se desejam o burlesco, que minhas mãos também encontrem espaços entre o sangue e a ignomínia, para receberem carinhos, afetos e reconhecimento com o qual o público nem sempre distinto buscou me distingüir.

publicado por blogdobesnos às 21:44

As sombras destas noites de inverno são diferentes das que sempre vi. O vento fustiga, geme, grita, e o frio praticamente me empurra para a cama. A casa se dobra a ruídos estranhos, que lembram animais escavando paredes e andando sob o tetos da casa; aqui e ali pregos deixam de ser silentes, enquanto o madeirame, de repente estala. Tudo o mais é silêncio. Acomodo-me na cama, e – penso – nem todos os cobertores e edredons do mundo seriam suficientes para me aquecer.

 

Depois de algum tempo, foco minha atenção na porta do banheiro, parcialmente aberta e cuja luz deixei acesa, enquanto escuto o vento. Parece existir uma névoa dentro de casa; de vez em quanto o ar seco combinado com o frio pode ser impressionante. Busco ser racional, pelo menos por agora. Quero evitar que a solidão me tome o peito, aumentando minha desolação. O frio permanece, e um sentimento de abandono me põe em desconforto.

 

Estou aqui, me aquecendo, e o torpor do sono me acorre. Quando fico assim, modorrento, a sensação é de me abandonar. É então que, novamente a vejo: a sombra negra que rapidamente atravessa a nesga de luz do banheiro. Meu coração se assalta, e é assim que a vejo, mais com os olhos da mente do que com uma completa integridade de visão. Lá está ela: intensamente negra, deslizante, de um negro que me parece mesmo sólido, e que gela o sangue. Escuto, ainda, um ruído, um rascar que me lembra ossos se partindo, e me encolho mais ainda, totalmente atormentado e em pânico.

 

O interruptor da luz está aqui, ao alcance da minha mão, mas parece infinitamente distante. Não consigo mover meu braço para acender a luz. A adrenalina se espalha pelo meu corpo como uma lâmina de água escorrendo no plano. Estou assim, quieto, olhos totalmente abertos agora. O medo me oprime o peito. É quando, do banheiro, escuto o chuveiro sendo ligado. Alguma coisa está ali dentro. O calor do edredon me envolve, e eu me sinto como que afogando em meu próprio suor. Posso sentir meu coração quase que explodindo, quando olho para o banheiro e várias sombras negras se deslocam em minha direção. Quase tão reais quanto apavoradoras. Na mão de uma delas algo faísca. Um punhal! Cerro os olhos e, desesperadamente, sinto que o sono me engolirá. Para sempre.

 

publicado por blogdobesnos às 21:43

O homem observou uma réstea de sol cruzar a vidraça da janela da sala e transformar a poeira em suspensão no ar em grãos dourados. Dando-se conta do milagre ficou ali, quieto, observando o ouro magnífico ante seus olhos. Ali estava uma brincadeira do sol. E a lua, será que quando tecia seus mantos de luz sobre as planícies, sobre os mares, também estava brincando? Ou seria mais que isso?


Pensou então em quantas vezes tomara poeiras em suspensão por ouro… Quantas vezes a ilusão tomara-o tão fortemente que perdera a noção do que era real e do que era apenas a projeção de seus desejos. Mulheres, ópios, um pouco de histórias de carteados, um acúmulo de esperanças, o dinheiro, o dinheiro, taças de cristal e de repente tudo vinha-lhe à mente: poeiras ao invés de grãos dourados.


De repente a tristeza tomou conta de sua alma e foi uma sensação tão forte que o coração ficou espremido, lá no fundo do peito, enquanto a melancolia tomava-o por inteiro. Ele estava mal, sim, ele não estava bem, claro que não, como poderia apenas uma simples observação causar-lhe tanto mal estar? Não, efetivamente havia alguma coisa muito profunda, perturbadora mesmo que o corroía, que o deixava tão sem-chão, com uma terrível sensação de abandono e de vertigem.


Levantou-se, caminhou para o centro da réstea de luz dourada. Desligou o celular e o telefone. Fechou os olhos e deixou-se ficar ali, recebendo o sol por um tempo que ele não saberia precisar. Nunca pensara nisso antes, mas a idéia de ser um pó, uma partícula, uma fímbria e de alguma forma captar-se a si próprio em um momento único de imolação começara a lhe parecer terrivelmente sedutora.

publicado por blogdobesnos às 21:26

Ontem tive tempo e fui almoçar em casa. No outono em Porto Alegre é assim: calor onde o sol alcança e frio onde houver sombra, às vezes com uma diferença de quase dez graus centígrados entre as áreas. Constipadamente simples. Estou há uns dois quarteirões de casa. Como já passa do meio-dia alguns trabalhadores estão sentados por aqui, perto dos muros, encostados nas paredes, sentados nos meio-fios, fumando um cigarro, contando histórias.

 

De repente, ela aparece. “Ela”, no caso é uma menina absolutamente bela, com uma idade indefinível entre dezessete e vinte e dois, com cabelos castanho-claros combinando com a cor dos olhos

 

.Evidentemente que, ao ver tão adorável criatura, todas as cabeças masculinas (perdão pela machista obviedade) se voltam para vê-la, como se o sol, momentâneo e de modo fugidio passasse a brilhar intensamente. À sua passagem, observo dois amigos que, sentados ao meio fio, acompanham atentamente a menina, que poderia ser uma garota. De Ipanema, claro. É quando um deles diz, com aquela experiência de lobo:

 

- É, e aí, compadre não tem silicone…

publicado por blogdobesnos às 21:07

Tarveiz, seu moço, eu num consiga dizê bem o que quero, até purquê não istudei prá isso. No interior, ondi nóis morava, era muito atrasado. Meu pai trabaiava in uma fazenda, mais também era pião e passava os dia cuidando de cavalo, pialando prá cá e prá lá – mas isso num interessa, né? U qui interessa é purquê eu vim pará nessa Vila. Pois o meu namorado, depois meu marido tinha uns parente puraqui – qué dizê, puraqui não, né, mais em Viamão.


Intão casemu nu interior, e fúmu prá Viamão. No início foi bom, eu não conhecia nada. Depois meu marido ficou desempregado, e foi na época in qui nasceu u Márcio. Olha, moço, passemu muito problema, meu marido Severo adueceu, e nunca mais conseguiu se empregá. Isso foi desdiqui u Severo teve um acidente – ele ía atravessandu na Farrapos i um ônibus pegô ele. Nunca mais foi u mesmu.


Sem trabaio, sem nada, sem dinheiro prá vortá pru interior, acabemu sabendu dessa Vila aqui em Portu Alegre. Vendemu u pôco que nóis tinha e viêmu prá cá. Paguemu us réis qui nus sobraro i nus instalemu.


Nu início foi muito complicado. Da avenida tinha só u nome, e, prá saí daqui, nóis tinha qui isperá muito tempo. Depois, cu’m tempu, veio a luiz, e mais gente passo a morá aqui. Us filhu foram cresceno, – u Márcio já tinha deiz anu, e a Edviges, sete. Daí as coisa foram melhoran’u,. eu tinha faxina certa prá faze.
….
Não, quéissu! Nem u Márcio nem a Dviges puderu istudá. U qui a genti ganhava di manhã comia di noite, e era assim. Até qui fui trabaiá na casa da dona Sara, qui era judia – prá dizê bem a verdade, moço, nem sabia o qui era judeu, só qu’êles tinham matadu Cristu, que me diziam lá nu interior, mas, como sô di religião, não m’importava muito.


Fiquei cuase vintianu trabalhanu c’a Dona Sara, e aprendi muito. No natal deles, a gente ganhava comida, uns pão trançadu, e sempre que pudia a Dona Sara mandava coisa prás criança, rôpa, brinquedu, u qui désse. Depois a Dona Sara i u seu Abrão encaminháru imprego prô Márcio, qui passô a trabaiá na loja do seu Abrão, i hoje tá casadu com minha nora Ilaci – é, sim, eu já tenho dois néto! U Márcio virô gerenti da loja i ganha bem, tem seu carrinho, compráru casa na Restinga, graças ao seu Abrão e a Dona Sara.


Quandu a Dviges casô, elis ajudaro na festa, e até a lua de mel deru prá guria, qui sempri foi da cabeça virada, e hoje vívi c’um português dono di uma farmácia no Partenon. Eu, depois, num dava mais prá trabaiá, foi mi crescenu uma dor nas costa, qui cada dia tá pior. Aí, mi aposentei, mas meus filhu tâo criado, graças a Deus.


Si num fosse a Dona Sara i u seu Abrão, num sei o qui pudia tê acontecido. Êlis morava numa casa lá na Osvaldu Aranha, depois si mudaro pá Protásio. Mais uma coisa qui m’impressionava naquela gente era as istória qu’elis contava, i parecia romance. Tevi uma veiz Qui o seu Abrão falô sobri uma matança qui ôve na raça deles – u tal de olocausto. Era uma noiti fria, i eu tinha ficado até mais tarde, e, depois da janta, ele mi contô a istória, prá mim contá pros meus filhu. Teve uma hora qui ele me mostrô uma tatuagem qui tinha nu braço esquerdo, e foi a única vez que eu vi o seu Abrão chorá. Até hoje não contei a istória prôs meus filho, muito, muito triste, seu moço.


Mais um dia, seu moço, um dia tarveiz eu conti.

publicado por blogdobesnos às 21:03

Quando meu filho Gabriel tinha 10 anos, era aluno da 4ª série do Colégio Israelita Brasileiro e escreveu este conto, que foi publicado no Jornal Informativo do Bairro Santana, na página 2. Publico agora como uma homenagem, pois guardei a edição do jornal desde novembro de 1993. Hilton.


BRASIL 


Um dia um menino olhou para o chão e disse: essa terra eu amo e não a deixo jamais. Ele pisava sobre o Brasil. Não tinha feijão, para saborear. Não tinha nenhum Legoland System para brincar nas tardes de domingo. Não tinha um rosto limpo para sair nas páginas do Gasparotto. Não tinha mordomo que o levasse por cima de um tapete vermelho até seu quarto. Era “mais um” para pedir esmola nas esquinas. Era mais um para sonhar com as aventuras pelo mundo afora. Era mais um que vivia a vender pé-de-moleque e mandolate nas ruas com o dever de trazer 200 ou 300 “pila” para a casa. Ou, senão, apanhava com vontade.

 

Meu personagem não é um herói, é apenas “mais um” que vive no Brasil. Só que nesta história entra um outro personagem que tudo tinha. E dizia com vontade que o Brasil era uma droga. Este personagem, nem sabia se Brasil se escrevia com “Z” ou com “S”. Ele não tinha vontade de gostar do Brasil. Não ouvia Chico Bujarque e nem Bethania. Não se interessava em saber quem era Caetano Veloso. Já tinha ido seis vezes à Disney mas não se interessava em conhecer o Brasil.

 

O pobre se chamava “Frendo” e o rico, “Fando”. O fim desta história é simples: enquanto o Brasil não toma jeito, a rotina é: Frendo sofrendo e Fando surfando.

 

 

publicado por blogdobesnos às 20:35

Quando meu filho Gabriel tinha 10 anos, ele escreveu este conto, que foi publicado no Jornal Informativo do Bairro Santana, na página 2. Não houve qualquer interferência minha no texto. Publico agora como uma homenagem, pois guardei a edição do jornal desde novembro de 1993. Hilton.


BRASIL

 


Um dia um menino olhou para o chão e disse: essa terra eu amo e não a deixo jamais. Ele pisava sobre o Brasil. Não tinha feijão, para saborear. Não tinha nenhum Legoland System para brincar nas tardes de domingo. Não tinha um rosto limpo para sair nas páginas do Gasparotto. Não tinha mordomo que o levasse por cima de um tapete vermelho até seu quarto. Era “mais um” para pedir esmola nas esquinas. Era mais um para sonhar com as aventuras pelo mundo afora. Era mais um que vivia a vender pé-de-moleque e mandolate nas ruas com o dever de trazer 200 ou 300 “pila” para a casa. Ou, senão, apanhava com vontade.

 

Meu personagem não é um herói, é apenas “mais um” que vive no Brasil. Só que nesta história entra um outro personagem que tudo tinha. E dizia com vontade que o Brasil era uma droga. Este personagem, nem sabia se Brasil se escrevia com “Z” ou com “S”. Ele não tinha vontade de gostar do Brasil. Não ouvia Chico Bujarque e nem Bethania. Não se interessava em saber quem era Caetano Veloso. Já tinha ido seis vezes à Disney mas não se interessava em conhecer o Brasil.

 

O pobre se chamava “Frendo” e o rico, “Fando”. O fim desta história é simples: enquanto o Brasil não toma jeito, a rotina é: Frendo sofrendo e Fando surfando.

 

 

Gabriel Besnos, 10 anos, aluno da 4ª série do Colégio Israelita Brasileiro, POA/RS.

publicado por blogdobesnos às 20:34

Quando meu filho Gabriel tinha 10 anos, ele escreveu este conto, que foi publicado no Jornal Informativo do Bairro Santana, na página 2. Não houve qualquer interferência minha no texto. Publico agora como uma homenagem, pois guardei a edição do jornal desde novembro de 1993. Hilton.


BRASIL

 


Um dia um menino olhou para o chão e disse: essa terra eu amo e não a deixo jamais. Ele pisava sobre o Brasil. Não tinha feijão, para saborear. Não tinha nenhum Legoland System para brincar nas tardes de domingo. Não tinha um rosto limpo para sair nas páginas do Gasparotto. Não tinha mordomo que o levasse por cima de um tapete vermelho até seu quarto.

 

Era “mais um” para pedir esmola nas esquinas. Era mais um para sonhar com as aventuras pelo mundo afora. Era mais um que vivia a vender pé-de-moleque e mandolate nas ruas com o dever de trazer 200 ou 300 “pila” para a casa. Ou, senão, apanhava com vontade.

 

Meu personagem não é um herói, é apenas “mais um” que vive no Brasil. Só que nesta história entra um outro personagem que tudo tinha. E dizia com vontade que o Brasil era uma droga. Este personagem, nem sabia se Brasil se escrevia com “Z” ou com “S”. Ele não tinha vontade de gostar do Brasil. Não ouvia Chico Bujarque e nem Bethania. Não se interessava em saber quem era Caetano Veloso. Já tinha ido seis vezes à Disney mas não se interessava em conhecer o Brasil.

 

O pobre se chamava “Frendo” e o rico, “Fando”. O fim desta história é simples: enquanto o Brasil não toma jeito, a rotina é: Frendo sofrendo e Fando surfando.

 

 

Gabriel Besnos, 10 anos, aluno da 4ª série do Colégio Israelita Brasileiro, POA/RS.

publicado por blogdobesnos às 20:27

24 de julho de 2007

 

Era uma vez uma tartaruga muito bonita, mas ela achava que não era muito bonita, porque era muito verde. E assim, ela passava os dias infeliz, nem pulava nas águas bem azuis do lago onde morava e nem conversava com as outras tartarugas.

 

Ela se chamava Adélia, mas as outras tartaruguinhas lhe apelidaram de azeitona, então ela se sentia anda pior. O que era uma azeitona, isso a Adélia não sabia, mas não devia ser alguma coisa muito boa. A-ZEI-TO-NA, que nome esquisito…

 

Uma tarde, houve um grande barulho nas águas do lago; um grande pássaro vermelho caíra na água, e fui uma grande confusão. Sem pensar duas vezes, Adélia se jogou na água e salvou o pássaro, carregando-o nas suas costas grandes e seguras.

 

O pássaro se chamava Gaspar e disse que tinha ficado muito satisfeito, e que iria recompensar Adélia, levando-a para voar e conhecer outras terras.

Foi só aí que Adélia viu como os campos, as planícies eram verdes, como as pessoas adoravam as árvores e as matas todas em diversos tons de verde. Então Gaspar levou a tartaruguinha para visitar uma plantação de oliveiras, que é o lugar onde se produz azeitona, e viu que da azeitona se faz óleo para alimento e que a azeitona é muito apreciada por todos. Que há vários tipos de azeitona e que todas são deliciosas, inclusive nas pizzas.

 

Foi então que Adélia se deu conta de que não tinha nenhum motivo para ser infeliz. Seu problema é que ela desconhecia que o verde era tão bonito e que a azeitona era tão gostosa. Foi apenas uma viagem para descobrir tudo isso, e sentir-se muito agradecida à Gaspar.

 

Então ambos tornaram-se amigos para sempre e nunca, mas nunca mais Adélia se sentiu infeliz; pelo contrário, quando alguém lhe dizia que ela era verde ou uma azeitona, ela sorria, feliz da vida e saía nadando pela lagoa, aproveitando o sol e a natureza que igualmente lhe sorria.

 

publicado por blogdobesnos às 20:24

Acerco-me de ti e então meu ódio por não poder estar contigo, por não ter a chance de envelhecer contigo, de amparar-me e amparar-te, de desfrutar o imenso gozo em que me transformastes quando me entreguei, me põe assim, com um travo de angústia na boca, e me faz dizer o que meu coração condena.

 

Então te digo que não te quero mais, que não te desejo, e isso fica claro e inequivocamente dito, para que não tenhas mais nenhuma dúvida de que não te quero ver mais, que me fazes mal, e meu palato fica repleto de tais palavras de liquidação, de desafeto e meus dentes trincam a mensagem como se estivessem mordendo um pedaço macio de carne e minha língua explode em bílis quando te digo, quando te afirmo, quando vocifero isso, para que as minhas palavras saltem com mil ódios sobre o teu corpo e sobre os teus olhos.

 

Não quero que tenhas nenhuma dúvida a respeito do que eu disse, porque eu mesmo, eu que assim digo, que procedo desse modo, tenho de confranger meu coração, constranger meu espírito e tenho que tentar, pela milésima vez, abortar de mim o imenso amor que nutro por ti, um amor desmesurado, absurdamente grande, e meu coração fica assim como se fora um pedaço de nada abandonado no vazio de minha alma.

 

E mais eu digo, e mais eu falo para que entendas de uma vez por todas que não te quero, quando a minha vontade é te levar comigo para qualquer lugar, para uma vila distante, onde não conheça ninguém, para uma cidade em que não nos reconheçam, em que não saibam sequer se somos mudos ou não. Na minha mente explodem mil sóis, quatrocentas luas e uma miríade de luzes noturnas.

 

Desesperadamente abandono minha vontade, porque sei, constato a impossibilidade de me amares. Quero te levar para comermos um sorvete, e a sorveteria não há. Quero passear contigo nas praças, mas já não existem caminhos que nos levem. Definitivamente te perdi e meu último ato de improvisado desespero e de infinita tristeza é gritar ao mundo que não posso te possuir, que não me tens amor, que fostes um vento de verão, uma melancolia de outono, um rio cuja vazante secou.

 

Explodem em mim frustrações e descontinuidades, e os sentidos e os sentimentos me colhem como um trem, como uma explosão de ira, que esconde o temor enorme de viver sem tua boca, sem teus carinhos, sem teus afagos, sem a tepidez das tuas curvas, sem a tua palavra imensamente amiga e consoladora

.

E agora que te disse tudo isso, e agora que não há mais lágrimas em meus olhos, que sou apenas uma folha morta, um pedaço ínfimo do que era, que estou aqui, alquebrado e meus sentimentos apenas me sufocam, me diminuem, me deixa ficar aqui, solitário, com meu orgulho ferido, com minha alma em frangalhos, como se eu fosse o que efetivamente sou. Um nada, um discurso feito de papelão, uma angústia que se nutre de si própria, do esgar do lobo que se inclina sobre meu corpo e, num minuto, o dilacera.

publicado por blogdobesnos às 19:46

Uma vez o era-uma-vez se cansou de ser sempre o início de histórias infantis. Ah, sim…sempre começava histórias com duendes, com fadas, com bruxas e com guerreiros…não se lembrava mais de quantas histórias, lendas, contos, conversas sempre começavam sempre do mesmo jeito…

 

Era uma vez decidiu que deveria tirar férias, sair por aí, entrar e sair das histórias como se fosse um amiguinho disfarçado de vento, visitar seus grandes amigos: os livros, as histórias em quadrinhos, as revistas para crianças e, talvez, aventurar-se por outras coisas mais sérias, dessas que os adultos lêem, e que chamam, com orgulho, de literatura.

 

Mas no dia em que foi visitar a literatura, ela havia viajado, então era uma vez percebeu que quem escrevia literatura achava que não tinha nada a ver com era uma vez…

 

Enfim, era uma vez resolveu se libertar, mas, ao mesmo tempo, o que seria das crianças sem “era uma vez”? Como começariam suas histórias tão bonitas, tão cheias de colorido e de luz? Foi aí que era uma vez tomou uma decisão: chamaria outras expressões suas amigas para substituí-la! Tão fácil, tão simples!

 

Primeiro veio o tal do “então”, mas não cabia…então rimava com pimentão, com canção e com o tio Elesbão, mas era muito muito “ão”. Que confusão!

 

Depois veio o  “em primeiro lugar”…ora! Imagine uma história com “em primeiro lugar”, “em segundo lugar”, “em terceiro lugar”…parecia mais um concurso de miss, e não um início de história…

 

E veio o tal do “inicialmente”. Imagine um conto iniciando assim: “inicialmente vivia um sapo numa lagoa…” É, parecia que o nosso amigo era uma vez não teria folga nunca!

 

Cansado, mas preocupado, de repente alguém o chamou: “-Compadre! Ô compadre!” Era uma vez aguçou o ouvido: “Quem seria?”, pensou.

 

“Sou eu compadre! Vim substituí-lo!”

 

 

Finalmente! Finalmente, e era uma vez pulava de felicidade! Tão simples, mas agora poderia tirar férias! Bastou que chegasse o grande amigo….qual? qual? Ele mesmo! o Uma vez!!!!!!!!

 

 

Uma vez um pirata….

Uma vez um duende….

Uma vez uma palavra …. e assim por diante!!!!!!!!!!!!

Bravo crianças!

 

 

Agora você pode começar sua própria história! Então, vamos lá, comece agora mesmo. Olhe para quem está com você e inicie: UMA VEZ…

publicado por blogdobesnos às 19:44

Penso como uma peça de estanho, busco em tua vida o que restou da minha. Lembro-me, sempre, de como aconteceu a minha morte, meu derradeiro alento. A lâmina penetrou profundamente em minha carne; primeiro em meu braço, mas eu ainda vivia, depois meu fígado e rins foram golpeados, mas mesmo assim eu lutava desesperadamente, até que, finalmente, abandonei-me ao torpor quando a quarta facada feriu minha jugular.


Esvaí-me como uma vela se apagando, e apenas restou de mim o que agora sou. Algo que vagueia. Meu ódio é tão grande que necessito agora, quase como se fosse uma nova vida, buscar as tuas vidas, aquelas que ocultastes de mim, as que me escondesses, me condenando a ser o que agora sou. Agora percebo que não vivestes apenas uma vez, mas muitas, que não eras apenas quem eu conhecia, mas que teu corpo apenas era uma lembrança a mais entre todas as vidas que já tivestes. Em todas elas, de algum modo, já me matastes, ou de amor ou de compaixão. Sempre fui tua vítima, sempre fosses minha algoz.

Por ora já te encontrei algumas vezes, mas por mais que eu fizesse, sequer notasses minha presença. Te busquei na tua casa, na odiosa casa onde fazes jantas amorosas para tua família, onde teu homem se refestela em teu corpo macio e delicioso que já me pertenceu. Fostes tu que me mandastes matar, por puro medo. Medo de perder o teu homem, os teus vestidos, os teus broches, as tuas jóias; medo de perder teu filho, de ver escapar entre tuas mãos adoráveis o que conseguistes graças às tuas seduções.


De onde estou, posso ver tudo, inclusive o que pensavas e pensas de mim. As tuas preocupações quanto a ligarem minha morte à tua pessoa. Ah, se eu pudesse gritar! Se pudesse ser ouvido! Todos saberiam como és vil, maliciosa, como usas de teus maneirismos para conseguir o que queres, quanto és capciosa e quanto o ardil habita teus seios e tua mente insidiosa! Mas, de onde estou, ninguém me ouve. Mais uma vez estou só.


Desloco-me entre as paredes de tua sala, te vejo dormir. Quanto a mim, não durmo mais, não descanso, não amo, não falo nem sussurro e apenas o ódio me nutre, me deixa rígido como uma pedra. Não tenho fome, nem sede; não tenho compaixão nem solidariedade. Sou uma essência de tormenta, sou um ser sem qualquer ligação com o mundo e se não passo de uma lembrança mais ou menos chorosa para os meus, devo isso a ti, que encomendaste a minha morte, e pagou a mão do assassino.


Não havia amor entre nós, isso nunca houve, apenas paixão, desejo, vontade de sexo, como se fossemos dois animais. Éramos assim, dois corpos que vadiavam juntos durante o tempo que podíamos. Uma unidade é o que éramos. Houve, contudo o momento em que nos separamos; e daí para diante te recusastes a me receber e a sequer falar comigo. De amante passei a ser temido, porque te poderia denunciar.


Aproveitei, sim, – claro! – aproveitei a situação: passei a te extorquir dinheiro, para gastar com outras e para te humilhar. Me suplicastes, lágrimas nos olhos (grande hipócrita!) para que eu te deixasse em paz, mas não te escutei e, de novo, te tomei o corpo e mais um pouco de teu dinheiro. Foi a última vez das muitas em que te possuí, mas estavas apenas entregando teu corpo, pois tua mente não mais era minha.


Então me mandaste matar. Tudo quanto passei, apenas uma certeza me acorre: vais pagar. É o que me embala, o que me nutre, o que me espanta e me acalenta: tomar a tua vida como mandastes tomar a minha. O que me poderia impedir é o sentimento que te devotei, mas, como tu mesma, ele era falso. Sempre fomos falsos, mentirosos, subreptícios, maldosos.


Não sei qual de nós é o mais falso, mas o brilho do meu ódio não. Esse, sem dúvida, é verdadeiro, como verdadeiro era o brilho da lâmina que me feriu e que me pôs aqui, absolutamente só, tão amargamente triste como uma pequena ferida a ferro e fogo, que não cicatriza. Somente me sustenta a tua lembrança e, alegre, já planejo, aqui, minha derradeira vitória.

 

publicado por blogdobesnos às 19:36

Escrito em 30 de julho de 2007

 

1

 

Marla, ao chegar ao seu apartamento, mesmo antes de abrir a porta, ficou alerta: claramente ouviu o seu cd player tocando. Cuidadosamente entrou, mas logo se arrependeu: houvesse alguém, poderia tê-la facilmente dominado. No entanto, apenas havia o som que provinha do aparelho. Marla vasculhou o imóvel, mas não encontrou absolutamente nada fora do lugar. A cozinha permanecia do mesmo jeito que a havia deixado, ainda com a xícara do café da manhã e alguns poucos pratos para lavar. No quarto, a cama estava arrumada, e havia, na sala, uns dois ou três descansos para a cabeça jogados indolentemente, por aqui e por ali. Tudo normal, Aproximou-se do aparelho e retirou o cd: I love MPB: Maria Bethânia. Umvd Import, 2004. Recolocou-o e acionou o mecanismo. Há muito não o escutava e, já mais tranqüila, resolveu fazê-lo. Gostava muito de Bethânia, e sabia de cor todas as letras das músicas. Também tinha uma noção muito clara da seqüência delas. Ligou o som em volume alto e decidiu tomar um banho.

 

“Muito quente”, pensava enquanto se banhava. Sentia-se bem, e embora não pudesse explicar porque o cd estava ligado quando chegara em casa, atribuiu o fato a uma simples distração. “De vez em quando a memória nos engana…” Era uma oportunidade rara de conforto àquela que se dispusera. No banheiro, despiu-se não apenas das roupas, mas também procurou afastar todos os pensamentos de rotina de trabalho. Queria, de repente, dar-se esse descanso. Bethânia continuava no CD, e era como que uma presença querida que a embalava, que lhe deixava feliz. Fechou os olhos, pensou em coisas agradáveis, enquanto ouvia “…a fé no que virá e a alegria de poder olhar prá trás, e ver que voltaria com você de novo a viver nesse imenso salão, ao som desse bolero, a vida, vamos nós, e não estamos sós, veja meu bem, a orquestra nos espera, por favor mais uma vez, MALDITA! MALDITA SEJAS TU RENEGADA!” O grito rouco, odioso, claro e alto, a atingiu como um trem. O susto fez com que Marla perdesse o equilíbrio e batesse violentamente com a cabeça na parede, abrindo-lhe um sulco na nuca. Desesperada, com a adrenalina e o terror a tomar-lhe o corpo, tentou se proteger, mas a visão do sangue entorpeceu-a e mergulhou-a em um desmaio enlouquecedor. Na sala, a música continuava: recomeçar…

 

2

 

Três dias após Marla foi consultar o médico; ainda sofria com hematomas, mas sua maior angústia provinha da desestabilização emocional que sofrera. Dez anos trabalhando na mesma indústria, uma carreira que, na época em que seu pai trabalhava, chamar-se-ía de assegurada, mas que hoje em dia dependia de uma infinidade de fatores que ela sequer poderia alcançar… Apartamento próprio, relações intensas, mas fugidias, Marla pensava em tantas coisas, e as lembranças a alcançavam a todo instante, mescladas com preocupações do dia-a-dia, e com uma insegurança que fazia com que as suas mãos ficassem úmidas, gélidas. Finalmente chegara. Manobrou o carro e colocou-o em um dos boxes da garagem que servia ao consultório médico. “Nada como ter dinheiro para pagar esses confortos”, pensou. Entrou diretamente no elevador, e de repente, passou a sentir uma perturbação que tentou afastar. Teclou na campainha, que abriu a porta. A secretária atendeu-a gentilmente e perguntou se não desejaria um cafezinho.

 

O consultório era bem decorado, o que fez com que ela se sentisse bem. Pegou uma revista ao acaso e tentou se concentrar no que lia, fosse o que fosse. Novamente sentiu-se incomodada. Não era nada visível, não era nada real, mas algo ali não estava bem. Desconcertada, jogou-se à leitura. Depois de um tempo indefinido (dez, vinte minutos, uma hora), a voz da secretária chamou-a. O médico era um homem já maduro e iniciou com uma entrevista preambular (diagnose, no jargão médico) para poder entender o que havia acontecido. Ela contou exatamente o que ocorrera, da sua chegada em casa, do cd ligado, do banho… Subitamente estancou. Havia algo indefinido naquele médico…algo que transcendia a consulta. Sim, agora se dera conta: não tinha conseguido olhar nos olhos dele… mas prosseguiu. Novamente o olhar dele agora aparecia como que embaçado, e ela se deu conta de que era a iluminação. Havia um ponto de luz que incidia diretamente sob os olhos dele. Tranqüilizou-se e prosseguiu. Agora sim, ele finalmente falaria. Ele pigarreou e disse: Senhora Marla, entendo o que a trouxe aqui – a voz era profunda, grave, mas ao mesmo tempo suave – No entanto – ele prosseguia – não há nenhum outro episódio, segundo a senhora relatou, que me pudesse fazer pensar em algum tipo de surto psicológico, a não ser que algo tenha ocorrido que não tenha me relatado.

 

Marla estranhou aquele tipo de argumento, pois ela tinha falado muito, tinha explicado além do que ele lhe havia solicitado. A entrevista incluíra um passeio breve sobre a sua vida, sobre as dificuldades que enfrentara inclusive em termos afetivos e psicológicos em relação a seus pais: a decisão de ir morar sozinha, as reclamações constantes que sua mãe lhe dirigira, o afastamento e a indiferença de seu pai, a dor que lhe causara o rompimento com ambos. O que esquecera, se além disso juntara todos os detalhes do que lhe havia sucedido três dias antes? Procurava agora se esforçar, o médico agora falava em “traumas”, “hipossuficiências afetivas”, e de repente passou a se sentir confusa. O que ela estaria “escondendo” como se fora algo do qual quisera se refugiar ( a memória prefere esconder os traumas, relegando-os ao inconsciente, lera em um livro de psicologia), algo de que não quisesse se lembrar?

 

As perguntas íam e vinham como se fossem novos tecidos sendo criados a cada instante, pedaços de memórias dispersas, uma sensação de angústia que a corroía a cada minuto que passava. O médico se levantara e passeava pelo consultório. Você não sabe, mas eu sei! A voz veio brotando como uma lâmina, por detrás dela. Automaticamente os pelos de sua nuca se eriçaram, enquanto o sangue congelava e ela toda colava à poltrona. A mesma voz de há três dias atrás! Enlouqueida, com o coração a disparar, não teve coragem de balbuciar mais nada. “Eu sei o que você esconde, eu sei o que você não sabe, eu sei dos assassinatos, das mortes todas, dos passeios noturnos, e estou aqui para ficar junto à você! Olha – a voz agora era um grito – olha pra mim!”Lentamente Marla voltou a cabeça. Do fundo do consultório, olhos amarelos a fitavam.

 

3

 

O chá fumegava enquanto Marla caminhava pela sua cozinha. Era preciso pegar a chaleira, era preciso despejá-la, era preciso apanhar a xícara (onde?) no armário, pô-la sobre a mesa, depois apanhar o açúcar, despejá-lo e, finalmente, com muito cuidado, beber a infusão. Assim, com calma, com muita calma, para não despejar o líquido fervendo sobre ela própria, como já acontecera.. Lentamente, lentamente. Primeiro o chá, depois as bolachas, era preciso esquecer do demais, do apartamento, do banho, do trabalho, da vida, dos amantes que tivera em sua vida, dos dois abortos, era preciso esquecer de tudo e concentrar-se unicamente em beber o chá, beber o chá, beber o chá…Depois, levantar, ir para – para onde? Levantar porque? Fazer o que? Os olhos amarelos a fitavam cada vez que ela fechava seus próprios olhos: terror infinito. No cd player, Bethânia continuava contando histórias de amor. No céu, uma estrela prateada cortava a noite, enquanto o vento açulava os transeuntes e esfumava de uma vez por todas a mulher que, até semanas atrás, Marla havia sido.

publicado por blogdobesnos às 19:28

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