Escritos para você

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Mar 12

Escrito em 17-04-2005


Hoje vi uma mulher, se é que se pode chamá-la de mulher; não já não era uma mulher, não dessas que a gente acha bonita, ou feia, ou desinteressante, ou das que carregam o mundo e as obrigações nas costas, como se tudo fosse um fardo enorme entranhado em suas próprias vísceras, obscenidades que se acumulam sobre os ombros delas, das senhoras, das eleitas para terem os filhos, para lhes cuidarem da educação, para lhe molestarem a paciência, porque mães muitas vezes desconhecem sequer os espelhos que mostram-lhes os filhos já grandes já desejando outras mulheres, menos maternais; mas, bem, então o que eu vi, se não era uma dessas mulheres a quem tanto amei, desejei ou fiquei indiferente, o que era então?

 

Era algo, que apenas tinha a forma de uma mulher, a forma indistinta de uma mulher, seus cabelos, suas alturas, suas ancas e seus formatos de seios; contudo, essa criatura trajava vestes imundas, trapos que mais ainda maceravam qualquer possibilidade de que fosse uma mulher, fantasias dramaticamente expondo sua miserabilidade maior, sua exposição de tristeza, sua desesperança completa em tudo em todos, inclusive em Deus, aquele grande bosta, aquele anjo vingador que havia roubado, furtado àquela toda e qualquer esperança e a mínima vontade ou possibilidade de ser feliz; e lá ia ela, a louca, a desvairada, a impura, a monte-de-trapos, mais uma das vacas que adejam nos campos de esterco com os quais uma boa parte das cidades-grandes são constituídas.

 

Essa mulher, essa coisa, esse ser desprovido de sanidade, de humildade, de compostura, de bom caráter, de savoir faire, essa biltre, cadelinha barata, contudo ainda uma mulher, pois gritava em língua portuguesa impropérios de baixo, médio e grandes calões, trazia em sua mão direita um pedaço enorme de pau, e ia assim, a obcena, segurando aquele pau enquanto as pessoas passavam e se afastavam, e enquanto a chusma de machos dizia gracinhas e ria do andar inusitado daquela pessoa; então ela, passando por uma carreira de automóveis que estavam estacionados sob a calçada gritou algumas palavras que não entendi, e bateu com aquele pau no capô de um dos carros, de um dos belíssimos carros, este era da cor azul-marinho e ela bateu duas vezes no capô com toda a força que seus nervos ainda podiam suportar, e dizendo palavrões e vomitando obcenidades continuou andando como se nada tivesse acontecido.


Ali, ninguém a viu fazer aquilo, porque ocorreu um daqueles momentos mágicos e apenas eu pude ver o que ocorreu. No entanto eu sequer reagi, porque aquilo era bem mais do que eu tinha observado, porque ali estava mais do que o escrito, mais do que o explícito, ali estava a bestialidade, a revolta, a coragem suicida de quem nada tem a perder, ou ganhar, ou comer ou mesmo raciocinar. E o meu espanto inicial pela cena passou então a ser nada mais do que compaixão e profunda pena.


Não por ela, por nós.

publicado por blogdobesnos às 14:15

Há tempos que eu queria tatuar-me e, pensando se deveria ou não fazê-lo, refleti nas inesperadas conseqüências de se falar com a pele. Porque tatuar é falar, não é? Não tenho com quem conversar, mas uma tatuagem poderia dizer o quanto me sinto sozinho. Penso… será que eu e minha tatuagem conversaremos? Essas cicatrizes não me deixarão ainda mais só? Não freqüento a mídia, nem as galerias de arte; não sou político, nem jogador de futebol, portanto, esse desejo não é um nenhumgolpe publicitário. Minha decisão de tatuar-me reside apenas na vontade de não afastar, nem que seja por um pouco, a solidão na qual estou prisioneiro.

 

Sou um homem que, amadurecido,já viveu o bastante para saber que o tempo não apenas devora tudo, mas, especialmente, vai apagando algumas memórias que me são muito caras. Sinto que progressivamente minhas recordações me abandonam, como me abandonaram os filhos, um a um.


Cada um deles possui suas razões, cada um deles também tem sua família. Os netos, igualmente, pouco me vêem. É claro que nas datas festivas fazem o possível para olhar o pai, o avô, e homenageá-lo, cada um de seu modo. Quando as festas se vão, igualmente eles partem, como o movimento contínuo das marés; eu fico aqui, imerso em meus pensamentos que também, a cada dia, mais se ausentam das minhas percepções.

 

Continuo elegendo um espaço de tempo para a leitura, pois até mesmo o computador, que manejava com uma certa destreza, atualmente me enfada. Minha velha paixão pelos livros retornou há cinco, seis anos Prefiro sentir o cheiro das capas e de suas folhas do que a da luz infinitamente gélida de um monitor. Os livros me devolvem algumas de minhas memórias, me mostram que aindaestou vivo. Mas afinal, quando se está só, está-se realmente vivo?

 

Aposentei-me há muitos anos. Minha amada se foi antes de mim e dela são as minhas recordações mais prementes. O seu cheiro, suas risadas e mesmo seus amuos. Construímos uma história tecida de sonhos, de belezas entremeadas aqui e ali de alguns desapontamentos e mesmo de desilusões. Quando, à noite, mergulho em meus sonos breves e entrecortados, seu rosto e seu sorriso é o que mais vem se juntar a mim. A morte que levou-a e acabou com minha paz fez-me intuir que deveria preparar-me para encontrá-la. No entanto, passaram-se anos e nada mais tenho a reconstruir, senão a sua ausência. Quando as noites caem, muitas vezes apanho meu carro(ainda dirijo, posso garantir) e circulo sem rumo pela cidade. Todos me alertam quanto aos riscos que corro, mas, de certo tempo para cá, não sei se faria tanto mal ser surpreendido por algum perigo…

 

Numa noite dessas, sentei-me diante da tela fria de um computador. Num desses sítios de busca, lancei de pronto “tatuagem”, o verbete “tatuagem”. Há sete anos esse verbete me persegue e me assombra. Digo, também, que há sete anos esse verbete me instiga a escrever no corpo, um nome. Muito calmamente pensei, arquitetei, escolhi a melhor pele do meu corpo cansado.Tatuar-me? Há alguns meses, na Cultura, deparei-me com um capa vermelha de um livro que me parecia convidativo. O corpo em performance… Resolvi me tatuar. Inscrever o nome de minha amada sobre meu corpo de modo que jamais pudesse esquecer. A cada vez que lesse o que em minha carne ficaria gravado, retornariam as memórias, os beijos, as pequenas rusgas, e , com o recordar viriam, também, a infância dos filhos, os momentos que me orientaram como pai, os pequenos movimentos que fazemos diuturnamente e que são devorados com o romper dos anos. Viveria tudo de novo.

 

“Tatoo Press”, what that means? pensei eu quando entrei no ambiente acanhado, mas imensamente iluminado, onde exibiam-se desenhos e alguns posteres improváveis na parede. Imprensa tatuada? Não sei precisar se estava correta a minha literal tradução do inglês. Uma bela moça veio me atender, certamente, pelo sorriso, entendi que  ela pensava que, inadvertidamente, eu havia entrado na porta errada… “Não”, eu disse “eu quero tatuar a minha pele.” O espanto traduziu-se, em princípio, por um alçar de sombrancelhas, que emolduravam belos olhos castanhos. “Sim, quero fazer uma tatuagem, enfim, saber os detalhes, o que é necessário, quanto custa, etc”.

 

Dias depois eu tinha uma inscrição no meu antebraço. Mandei fazer um coração, como uma moldura. Dentro, o nome da minha amada e, abaixo do conjunto, emoldurado por uma lua azulada, o nome de dois locais de minha intensa recordação afetiva. Se senti dor? Claro que sim! Mas, de certa maneira, a dor é uma amiga que á me acompanha pela vida… mais próxima nos últimos anos.

 

Imagino, entre curioso e divertido, o que meus filhos e meus amigos irão dizer quando testemunharem a minha morte, quando enfim eu me for, e, só nesse momento, poderem ver minha tatuagem. Não contei para ninguém que me tatuei e guardo, comigo, como um mapa do tesouro, as pequenas cicatrizes coloridas na minha pele. Um derradeiro segredo, uma fonte de volúpia. Apenas quando me banho revelo para mim mesmo as marcas que mandei fazer em meu corpo. Converso de vez em quando com essas inscrições como se fossem uma amiga cálida, como se elas sempre tivessem estado ali.

 

De certo modo, a conversa com minhas tatuagens mantém minha mente ativa, porque na escuta… É um espelho que me recorda, ainda, o que de melhor em minha vida eu experimentei e disso eu posso contar. Dia desses, calor abrasivo, voltei à Cultura e procurei o livro que me deu a idéia da tatuagem. Lá estava o artigo na página 97, “Tatuagens e cicatrizes: performances narrativas na contemporaneidade”. A autora, das terras distantes de Minas, Lyslei, Lyslei Nascimento, nascimento… Que nome estranho para se ter em Minas… Em casa, com o livro a minha cabeceira, adormeci e parece que não sonhei… Quando o dia nasceu, demorei-me ainda a contemplar o pequeno livro vermelho e, junto a ele, minha inconcebível inscrição. Após tantos anos, nunca me sentira tão bem.

publicado por blogdobesnos às 13:43

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