Pausa para um poema triste. Ou dois.
Ou sublimando as pulsões de morte.
Ana de G.
Vivo como quem
já não mais vive,
ou ainda não.
Escolho palavras
como escolho ruas
só para variar
só para tentar viver em mim
uma parte nova
desconhecida
inabitada
in-esquecida.
Para tentar tornar leve e ágil
o cérebro pesado e inerte
que, silente
lamenta minha dor.
Procuro no porvir
um pouco mais de alegria.
Mas esse tempo não há
ainda
somente existirá
no inospitado
pensamento.
Chegado o lá
o que é agora
desmorona
e faz reviver
a dor de outrora.
Tempo
que consome as esperanças
e o frescor,
que cura dores
e mantém vivas as cicatrizes
amargas,
que separa os amores
une os corações
apodrece os corpos.
Vida incompreendida
indecifrável
ininteligível
que só se faz
sentido
na voz de meus filhos
no olhar de meus filhos
na doçura de meus filhos
na perplexidade
de meus filhos
nas descobertas
que se me apresentam
por meus filhos.
Meus filhos
que me mantêm acordada
tentando crer
ainda.
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Se o teu olhar ainda me diz
que de mim precisas
que tua fraqueza
da minha força vive
já não me diz
da minha beleza
da minha singular existência.
Já não me comes
com olhos famintos
mas me devoras
com o teu cruel
desinteresse.
Palavras ocas
Beijos vazios
Abraços frouxos
Minhas palavras
já não te dizem
somente te informam
o que escolhes saber.
Do meu saber
queres pouco
ou quase nada
ou nada
porque de nada vale
para a tua magnífica existência
além de mim.
Se já fui musa do poeta
inefável
para quem me desejou um dia
hoje
disforme
recolho minha insignificância
num pedaço
de papel.
E morro um pouco
a cada dia
pela falta
do que me faz
falta.