Escritos para você

31
Mar 12

Pausa para um poema triste. Ou dois.

Ou sublimando as pulsões de morte.

 

Ana de G.

 

Vivo como quem

já não mais vive,

ou ainda não.

Escolho palavras

como escolho ruas

só para variar

só para tentar viver em mim

uma parte nova

desconhecida

inabitada

in-esquecida.

Para tentar tornar leve e ágil

o cérebro pesado e inerte

que, silente

lamenta minha dor.

Procuro no porvir

um pouco mais de alegria.

Mas esse tempo não há

ainda

somente existirá

no inospitado

pensamento.

Chegado o lá

o que é agora

desmorona

e faz reviver

a dor de outrora.

Tempo

que consome as esperanças

e o frescor,

que cura dores

e mantém vivas as cicatrizes

amargas,

que separa os amores

une os corações

apodrece os corpos.

Vida incompreendida

indecifrável

ininteligível

que só se faz

sentido

na voz de meus filhos

no olhar de meus filhos

na doçura de meus filhos

na perplexidade

de meus filhos

nas descobertas

que se me apresentam

por meus filhos.

Meus filhos

que me mantêm acordada

tentando crer

ainda.

 

*********

 

Se o teu olhar ainda me diz

que de mim precisas

que tua fraqueza

da minha força vive

já não me diz

da minha beleza

da minha singular existência.

Já não me comes

com olhos famintos

mas me devoras

com o teu cruel

desinteresse.

Palavras ocas

Beijos vazios

Abraços frouxos

Minhas palavras

já não te dizem

somente te informam

o que escolhes saber.

Do meu saber

queres pouco

ou quase nada

ou nada

porque de nada vale

para a tua magnífica existência

além de mim.

Se já fui musa do poeta

inefável

para quem me desejou um dia

hoje

disforme

recolho minha insignificância

num pedaço

de papel.

E morro um pouco

a cada dia

pela falta

do que me faz

falta.

publicado por blogdobesnos às 15:10

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