Sapere aude, junho de 2009
Ali, naquela planície, havia uma cidade, e ela era como algumas cidades que temos em nossa mente. Todas as cidades; ali havia um rio que serpenteava e a abastecia durante o ano inteiro, e havia também ruas, avenidas, vielas, pequenas pontes, travessias, monumentos, praças e muitas pessoas que íam construíndo seu dia-a-dia, amando, envelhecendo, nascendo e se aposentando. E como em toda a cidade, havia os prédios, todos eles, os históricos, os modernosos, mesmo os shoppings (não há uma cidade sem eles…) e eram antigos, de todas as cores possíveis e ainda aqueles que foram perdendo as cores, as escolas, as repartições públicas, os hospitais, mesmo os hospícios, enfim, havia tudo ali que existe dentro de uma cidade, os lugares mal-afamados, os lupanares, os distritos policiais, as sargetas, a marginália que aumentava a cada final de dia e que ali parecia multiplicar-se enquanto o rio era ferido, maltratado, mas seguia o seu curso sempre igual entre as montanhas e os vales.
E ali, naquela cidade, havia uma avenida e dentro dela uma rua transversal e dentro dela os seus prédios e dentro de um deles um apartamento no qual vivia um homem só e dentro do homem havia um coração e dentro dele nada, absolutamente nada.
Talvez, pensando naquele homem sem cheiro nem cor, que se confundia com a própria paisagem, com as pedras e com as cores dos tijolos que construíam as paredes, e sem nada no coração que alguém, de certo modo poético, tenha cunhado a expressão cidade-fantasma.